09
Dom, Maio

destaques
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Era de tarde e o cemitério vivia

os melhores dias da terra ávida

(e desolada onde  Eliot habita).

Era uma quarta-feira cinza

e a tarde parecia de platina quando

o féretro marrom apressado passou

(por um triz não raspou em mim desolado).

Não era uma tarde estoico, era

Uma tarde plásmica e chovia

cântaros de dor e uivo assombrando

oiças e corações estagnados.

Era uma tarde náufraga ( e mestruada?)

 

Pensei em como eram os irados gestos

do amigo enterrando-se.

Desdizendo e contrariando Cristo

joguei uma mão de terra desconfortável

no caixão valioso mas sabia

não caber a vivos enterrar a morte.

 

Se  ressurreição ainda é duvidosa

porque adubar-se a terra de lágrimas

Inférteis ou nada clamorosas?

 

Por que irrigar o morto de pranto

morto bem disposto (ou deposto ou imposto)

no vasto caixão?

 

Se a morto é tão insignificante

e desvalioso o seu estado de desalento eterno

Por que vangloriá-lo tanto?

 

Se nem do murmúrio das folhas

se nem do rumor noturno da campa

se nem do áspero mover da relva há

indicação de novidade sob a lua

por que pratear o morto de pranto

tão sem sentido ( se a umidade foi-se também)?

 

( se não me leem é que escrevo ao morto

- à suas sementes sem datas  somente).

{jcomments on}

Murilo Gun

 
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