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Dom, Jun

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Vital Corrêa de Araujo

 É preciso ser minuciosamente corajoso para defrontar a tarefa de escrever um haicai. Em três versos (limitados) expressar o infinito e a eternidade (comungados) e algo mais, apenas com umas poucas palavras.

Numa extensão mínima maior irmanados num mísero terceto. O simbólico e o metafórico.

Do ponto de vista da lógica ocidental, o haicai se justifica, pois quanto maior a compreensão menor a extensão. Se defino (traços de comprensibilidade) o homem como animal racional, abranjo todo o mundo (extensão máxima). Se acrescento a nota de II do Brasil, reduzo a extensão aos brasileiros.

Coragem, talento e disposição para usá-los tornam Cloves Marques mestre da lira mínima moderna, o verso nipônico, no Brasil de hoje: haicai e tanka.

A norma da poesia japonesa nos primeiros 1000 anos de nossa era foi o tanka ou cantiga breve, de iversos e 31 sílabas assim distribuídas rigorosamente: 5-7-5-7-7. E absolutamente sem rima.

Decorrido mais de  um milênio da prática do tanka, os poetas japoneses acharam pouco, e incrementaram o desafio, causados da grande extensão do verso tankaísta. Cinco versos eram demasiados para o pleno e livre exercício poético. O tanka ficara grande, volumoso. E fácil. Como chegar a uma forma ainda mais concentrada: o haicai? Fácil também. Reduzindo o tanka a 3 versos, condensando a forma, seccionando do tanka as últimas duas linhas.

O haicai é uma cantiga breve tornada ainda mais breve pelo desprezo das últimas 14 sílabas (dos quarto e quinto versos de sete sílabas cada) do tamka originário. Portanto, o haicai não proveio de uma visão, quengada, Fiat, relâmpago mental, mas de um aperfeiçoamento da forma poética tanka vigenta há milênio.

O mais desafiador, numa língua aglutinante como a japonesa (e não monossilábica como o idioma chino) foi como compensar a ausência do extensão por uma correspondente maior compreensão, adensamento expressivo, espessamento de conteúdo.

À redução da extensão do poema correspondeu uma drástica concentração da ação poética e do cenário lingüístico no mínimo espaço e máximo tempo possíveis. Algo que parece estar quase acabado quando começa.

Alguns poetas exercitamos o haicar (heterodoxo) de modo que em tema e expressão estamos perfeitamente conformes com o espírito do gênero, apesar de metricamente imperfeitos. O rigor nipônico é proverbial.

O grandioso Guilherme de Almeida rimava o haicar, o que drasticamente contrariava o modelo originário.

Algumas vezes, submeti poemas longos a uma destilação drástica, a filtros rigorosos, a reduções improváveis de extensão, logrigando haicais ou quase.

V.G.: Depois da farra

            pássaros amanhecendo

            sol parindo luz       

                                   (ou parto solar e ressaca)

Murilo Gun

 
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