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Sáb, Jul

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Maria de Lourdes
Hortas Burocracial (poesia)
Vital Corrêa de Araújo Edições Pirata, Recife/ 1982

“Embora  apodreça/  no  estoque  estúpido/  do  supermercado/  a poesia está  em  falta/  mas  viaja”.  Quem  diz  isto  é  Vital  Corrêa  de  Araújo,  no  livro Burocracial,recentemente lançado pelas Edições Pirata, e que acabo de ler.

Mário Quintana, quando esteve em Recife em novembro de 81, para a Semana  Joaquim  Cardoso,  disse  uma  frase  que  arquivei,  por  responder  ao pânico  de   muitos   críticos   sobre   a   quantidade de   poesia   ultimamente publicada  em  todo  o  Brasil:  “Acho  ótimo  publicar-se  tantos  poetas.  Porque embora noventa por cento dessa poesia não se salve, dez por cento é boa. E é bom  haver  milhares  de Chiquinhas da Silva para acontecer, de repente, uma Cecília Meireles”.

Agora,   reencontrando   a   poesia   do   autor   de   “Título   Provisório” (publicado  pela  Fundação  José  Augusto,  de  Natal,  em  1978),  vou  buscar  a frase  de  Quintana,  adaptando-a  à  circunstância,  para  dizer:  acho ótimo publicarem-se  milhares  e  milhares  de  Fulanos  da  Silva,  para  de  repente aparecer um Vital Corrêa de Araújo.

Trata-se, sem dúvida, de uma voz de timbre novo –clarim acordando o leitor, que boceja diante de tantos livros que se pretendem ser de poesia, mas que  não  passam,  na  maioria  das  vezes,  de antologias  de  lugares-comuns, vistos, revistos, gastos, cansados.

De  grande  unidade  e  harmonia,  quer  na  temática,  quer na linguagem, este  livro  não  é  mais  um  entre  os  muitos  conjuntos  de  versos  de  lirismo balofo, onde os autores se põem a contar, em formas mal alinhavadas, as mal traçadas   linhas   de   suas   vidas.   Ao   invés   disso, Burocracial é   um   livro consistente,  onde  forma  e  conteúdo  se  entrelaçam,  alcançando  um  elevado compromisso  com  a  arte.  E,  como  arte  que  é,  não  está  fadado  a  apodrecer “no estoque estúpido do supermercado”, porque vem suprir essa carência de verdadeira  poesia  de  que  tantos  se  queixam.  V.C.A.  não  estáapenas  de viagem, passando pelos mares da vida e da poesia como um turista distraído ou diletante. Veio para ancorar, denunciar, intervir.”

 

Murilo Gun

 
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