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Sáb, Jul

destaques
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No ímpeto  estrépito do  tímpano  das cores o início

nos sais do tempo os ossos do passado

dores arqueológicas traços

de amores cambrianos antigos

vestígios do coração das luzes de suas ruínas escavados

por  um  deus compassivo ainda habitado do humano

as cinzas espalhadas na imensidão do inconsumível

cadáveres amontoando-se  como  areia em declive

na tarde aberta  a pátios de outubro

a tristeza de Deus estampada no céu

no rosto  das rosas cansadas

na pútrida  catedral do crepúsculo

no imo  do homem  que  rasteja

estábulos em disparada pesadelos

de mãos dadas com tempestades

e candelabros de entristecida chama

fustigando o espírito demolindo  a alma

as decepções e os cotonifícios

a pétrea ingratidão partindo  os fios

dias obstinados fugas de cavalos

pelos campos senis de dezembro

hostes de carmim amargo invadindo

o ártico lábio das mulheres

seus paradisíacos corpos devastando

a sede iconoclasta dos homens

a ímpia certeza do êxtase a todo custo

por  vândala cinza iluminada

de cruel abril que se propaga

pelos féretros sem conta das quartas-feiras

o império  do  sal devastado as linhagens interrompidas

enterros  de condes ressuscitados

e duques vazios inchando

em castelos sem amparo de solitários

muros  sem a cal da alma cobertos

pelas mortalhas das perdidas batalhas

acumuladas nas paisagens do espírito

a caterva de lixo metropolitano

 

as estações azuis de teus olhos bêbados

barcos a que todos os portos se negaram

capitães de peitos desertos como o pranto  de setembro

trens corroendo  a veia anêmica das cidades

a prosperidade  das empresas avícolas em destaque

em êxtase a apoteose rural dos cogumelos a volúpia

de intrincadas doçuras abrindo-se no conluio  das abelhas

a colméia dos voos ferroviários em falta

olhos de cavalos injetados no horizonte átrida

gesto escuro o poeta oferece ao futuro.

Murilo Gun

 
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