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Sáb, Set

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 Todos os sentidos (possíveis ou imagináveis, como disparou Rimbaud) são, além de possíveis, imprescindíveis ao poema, menos o sentido único, sentido títere, imperativo, forçado, autoritário, em que a grandissíssima maioria dos “poetas” brasileiros se louvam.

É a univocidade absoluta de sentido, como um mero pão dividido para todos os famintos leitores; o sentido indubitável, a ser servido e cuidadosamente preparado pelo “poeta” cozinheiro de ingrediente único, que é consagrado no Brasil, como receita exclusiva da poesia. O tal poeta cuida bem para expurgar, jogar fora do prato, reservar, para ir ao lixo verbal, qualquer ambiguidade, hermetismo mínimo, lance de dados verbais estranho; é o império do sentido claro, única estrada poética de via única, mão para o perfeito e inquestionável – isto é, automático, “entendimento” do príncipe leitor (que adore poema fácil, com palavras claras).

            Em poesia, busco o terceiro sentido e as segundas intenções da palavra (armadilhas ao leitor, talvez?). Ou todos os sentidos e todas as segundas intenções. Só o primeiro sentido é literal, inocente, claro, ordeiro. Valem os sentidos dados ao acaso de lê-los. Dispo o verbo de suas capas, máscaras – e aparências, todas falsas; e dos rostos da tradição autoritária, faces do estabelecido em definitivo, edifícios eternos, rumos de um só curso (como rios pequenos), como é o caso (patológico) da poesia neoposparnasiana.

            Qualquer meio artístico não pode nem deve transmitir mensagem, porque ele é o fim em si – e não veículo de nada. É arte, não fala, discurso vulgar. Tábula de negócio, mesa de banco, etc.

            O problema é a demanda, o público leitor (quase zero na poesia absoluta – difícil). Escrevo sobre absolutamente nada, dispara poeta absoluto.

            A recepção da poesia neoposmoderna, ante à cultura materialista, o fetiche da mercadoria, a fome de consumo e dólar dos mercados, o produto “humano” da indústria (que emprega) e o desenfreadíssimo consumismo, é um desastre. A poesia é abstrata, complexa, inocente, humana, porém age sobre um mundo culpado de autodestruição e trucidamento da cultura por vir. Sem inocência, não há poesia. E se estão todos objetivando o lado material da vida, necas ao aspecto cultural, artístico, humano realmente.

            Os que buscam na poesia os primeiros sentidos e ótimas intenções, além da demanda sentimental, representam, hoje, quase todos os que se digam poetas, no Brasil. Poetas?! De sentido claro, primeira intenção e bons sentimentos o inferno está cheio (de tais poetas).

            A cultura (de massa, informal, sem graça) no capitalismo único e avançado de aqui, agora, tornou-se algo sem saída, labirinto sem touro ou porta, revestindo a forma cruel do fetiche da mercadoria (artística ou não), em que a cultura se transformou (de massa sufocada).

            Arte e mercadoria (na e fora da rede e mídias em geral) é o real e não se pode fugir dele, a não ser via poesia absoluta. São proposicionais (dizem e implicam coisas e atitudes), as mercadorias não.

            Na poesia, há ritmo musical claro, luzes dançantes, balés de eléctrons. E há pedras (marinhas ou não). E daí? Pelo objeto abstrato, alcança-se a sublimidade. A complexa (hipercomplexa, segundo Marcondes Calazans), abstratíssima e curativa poesia absoluta eleva leitor a um alto nível humano (nada automático, mecânico).

             O problema (é mais embaixo) reside em que, graças à baixa cultura artística brasileira (cultura para nós é folclore, Bilac, Alves, coisa – boa ou não – do passado). Ninguém (ou muito pouquíssimo) está familiarizado com a história da arte, com a poética moderna, e para estes, tanto esse tal poema absoluto é coisa estranha, de outro mundo. Como poesia é algo inútil. E os coitados optam pelo mais fácil, para não quebrar a comercial cabecinha. É? Bons sentimentos não dão poesia!

            Conforme Eco, terceiro, quarto ou quantos sentidos hajam num texto poético, melhor. É a teoria da “opera aperta” a base da poética absoluta.

Murilo Gun

 
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