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Ter, Out

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                                                                           Paulo Bandeira da Cruz

             Vital Corrêa de Araújo é um funcionário que escreve a poesia pública. A sua temática é o dia-a-dia: a gaivota, o arquivo, a máquina administrativa, outras engrenagens e, sobretudo, o morto-vivo da floresta urbana: “eu batizo as engrenagens / analiso os pesadelos de Freud./

No intervalo, entre as tenazes dos séculos/ trituro sorvetes de amianto / e poluo os lençóis freáticos. / Aponto meu dedo de vanádio/ para os olhos dos átomos./ Eu, incônscio, cremo o currículo, desnudo o abismo”/.

            A composição poética é enxuta, é seca.

             A palavra usada no premiado “TÍTULO PROVISÓRIO” é a necessária da música e a essencial do grito. Nada sobra e nada falta dentro do contexto. O poeta consegue esparramar as suas ideias por cima de versos como se fossem ondas, “uma água esbatendo o cais / salpicando-me as mãos que te desejam e sangram/ em luz e madrugada”.

            Contudo, a frase é agônica, áspera, azeda, amarga, cáustica e o desejo, para o poeta, “é Ter mãos ou sonhos?/ o desejo és tu ou este desespero de poema”? Desesperado, lembra, em alguns momentos, a poesia de Augusto dos Anjos. Apenas lembra, pois, as benéficas influências que recebe são de outras origens: Frederico Garcia Lorca, Fernando Pessoa, Ezra Pound: “a verdadeira pedra não medrou./ Esta é uma pedra; que a planície não concebe/ que a mão não mede./ Esta pedra apedreja a mão que a planta/ mas não dilacera os punhos/.

             A influência de Ezra Vital carrega dentro do bolso esquerdo do seu paletó de terra. Por isso, a sua poesia é sintética, é conscisa, é crua, é inevitável: “é preciso superar/ não só o espaço onde sou-preso/ mas o tempo do eu-fixo./ Preciso ir e assim vou andando/ indo, lavrando/ a ir e voar, a semear o voo de ir/ a semeir”/.

            A poesia de Vital Corrêa de Araújo, “milênias rosas atonais, presas ao punho/ como algemas encarnadas, lendas tarântulas” / é, por vezes, apunhalante, feito a lâmina de que é constituída; por vezes moída, feito a carne de que é cozida, levada ao fogo fátuo da verdade, ao forno da vida: “sou especialista em metalúrgica alemã/ com pós-graduação nos altos fornos judaicos/ e conjugo o verbo em tempo de gusa / e louco sofro o choque/ da humanidade típica”/.

            Mas a poesia de Vital Corrêa de Araújo também e feita deste maravilhoso pão: “jamais te dedicaram um simples verso/ a voracidade é maior do que o lirismo/ devoram-te e não te veneram/ mas, doravante, pão, tereis poema/ penetrarei com pinças de Virgílio a tua cereal entranha/ irei, além da tostada forma/ do conteúdo/ alto-proteico/ viajarei além do vulgar  nível alimentar/ ultrapassando as fronteiras da padaria/ não vale a filosofia do padeiro/ nem a metafísica do merceeiro/ a sociologia de tua massa é tão sublime/ quanto a das multidões/ irei, além, pão, do nível comum/ do entendimento ávido/ dos a quem te doas heroico, desprendido/ suicida, alimentar/ e tocarei a última substância do trigo/ o germe ínsito/ a própria consciência cereal/ a paônica essência”/.

            De outras vezes, o poeta pula de alfa para ômega e, pelos labirintos da sua parábola, com “dedos líquidos, sincrônicos cinzéis, mãos modelando a imaginação em barro”, constrói a sua cantiga em água e areia, “talhada à mão e a sonho seco”, dando, na cidade, um violento e sonoro soco na cara: “apalpo teus cabelos químicos, floridos de espera/ e espermo luz em teu sexo de neon/eu abranjo tua vagina urbana com minhas mãos rudes e sequiosas/ e bebo a estrutura de teus seios bissemânticos/ eu sou o sêmen deposto na avenida/ no ventre ambíguo das ruas, no dorso dos becos nus”/.

            “Quando a gente não consegue mais ler a poesia de Vital Corrêa de Araújo é porque, infelizmente, o seu livro já terminou. Aí, as páginas não se incendeiam, o abismo não se ilumina, e só nos resta “peixe na garganta dos homens calados/ chama dentro dos olhos apagados”/.

             Sim, porque, se Vital Corrêa de Araújo não inaugurou, é hoje a voz mais autêntica da nova poesia alicerçada no organizado caos urbano”.

            “Para finalizar, só não concordo mesmo é com o “TÍTULO PROVISÓRIO”, pois a poesia de Vital Corrêa de Araújo é definitiva e o poeta veio para ficar e grampear o seu nome na listagem da melhor poesia brasileira contemporânea: com o ferro da voz e o arame dos dedos.”

 

Fragmento de artigo publicado no Jornal do Commércio

Murilo Gun

 
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