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Sáb, Nov

destaques
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Lágrimas frias descem

como avalanches líquidas

pelas faces seminuas

e solitárias abandonam o rosto

em goteiras e orgasmos

a ouvir o pranto o esgar do ouro

e sua turva do surdo mineral

de através iluminava a dor

que espessa e faz pesar a alma

um grito votivo, o som de alumínio

anúncios de orgia e martírio

desenho de voragem no espírito

esse papel metafísico ainda não escrito

tudo, toda a cal do alicerce

da parede metafórica

e o dedive áspero por onde choro

em cascata ressoava, nada belo

era apenas um rio artificial e sem promessa.

 

Da manhã ergueu-se sol calcinado

irmão da morte de igrejas sepultadas

como portos sem devoção (e náufragos)

e ouvir a voz das raízes, o nítido

zumbido do id – esse pássaro ínfero

a lua selada, o sal oculto, a força morta

a grama titubeante e o coro surdo, tudo

introduzia ao lixo da alma, o cavalo da ruína

avançava contra as alfândegas da febre

assim, todo o regozijo morto, resta

a pestilência salvífica, o oder podrido resta

resta o ramo seco, a primavera ribanceira abaixo

resta também e a luz do dilúvio

dos mortos obscuros.

Nada, nem mesmo o vazio, a ungir-lhe os corpos.

 

 

 

 

 

Murilo Gun

 
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