20
Qui, Jan

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

                Comecei a me reconciliar com o mundo, a ser e continuar sendo quando apostei pascalinamente no futuro do prazer. Repreendê-lo é maléfico e implica secar a fonte da humanidade em nós. O prazer traz a nostalgia da origem edênica, vital.

É bálsamo, hino, sonho, sede de ser, vida, sangue, pulso, bíblia, impulso e redenção o prazer. É purga. E contemplação de cinzas. Música celeste derramando-se como chuva do corpo para a terra. Por que se autoerodir, sedar-se a si, fugir de ser, morrer para os sentidos, embalsamar-se de culpa e pesadelo, decair, decair para não resistir às doces tentações ou emboscadas do prazer? Por quê? Prazer é a realidade, não transgressão. Cernuda, sábio, o sabia bem. Paixões e inclinações, o corpo inteiro – e sua melhor parte a inferior, e a unidade do prazer como realização da potência humana, versões e perversões como atos e fatos da vida, ou seja, verdades em si, e seu reconhecimento nu, tudo é natural. Nada é contra natura. O eu não é social. É paixão.

                A proibição do instinto e a libertação tipo bursátil, o tal voto secreto (que limita o viver e o demoniza), a repressão do ser, a vedação legal do prazer, eis o que nos faz feras.

                Viva o desejo quântico, cósmico, total, abaixo o desejo mecânico, não instintivo, civilizado, culpado, que não nos desvela a paixão e encobre a realidade do ser. O desejo une, foi o fiat, não a luz, mas a sombra iluminando o homem, como destino, caminho para a duração do prazer. A atração dos corpos se faz via gravidade do desejo. É o sexo a única forma útil de união espiritual, pelo veio da carne que flue do ser. A cópula, o encarnar-se recíproco é fruto e consequência da lei de atuação espiritual tornada realidade carnal. E suprema. Vida. Faça-se justiça à paixão, dê prioridade ao desejo, viva o animal em nós, que é constitucional. Viva a gravitação do desejo amalgamado corpos, atraindo seres, unindo carnes. Em êxtase puro.

                Vou falar (a mim talvez, talvez a algum leitor solitário – ou leitura acabrunhada com a banalidade do todo) sobre vida, ou melhor sexo. Já que somos não pessoas metafísicas, mas parceiros sexuais. Para mim não há distância entre metáfora, abraço e coito de palavras. É ato cujo fruto é poema. É verbo em erupção gozosa. Porém o melhor poema é o ser dentro do ser sendo. O falo e a cona, em núpcia, união, penetração, absorção, negação do ordinário, das gramáticas sociais e repressoras. Em vida. No coito há abolição do tempo (como plenitude do vazio), por instantes tudo cessa, passa, fica o êxtase pleno, inteiro. Há morte e renascimento simultâneos (não só sucessivos) no ato sexual, o ato por excelência humana, gerador, usina do ser. É das pequenas mortes que sai o Ser.

                Instante incomensurável o do gozo (algo gozoso e concreto por excelência). Gozo sexual que é chispa, relâmpago, haicai conciso e perpétuo. Íntegro e fragmentário. Amar em carne é confiar-se à corrente de ser-se. Dixit Heráclito, via Heidegger: não se ama duas vezes, é sempre outro. É uma duração sem corpo o amor. E sem gênero. E sem matéria. É um paraíso aberto o sexo. A todos. Só com as exceções de praxes religiosas, inúteis. É a práxis humana o amor, pátria do corpo. Fonte do ser. O ato de sexo é primal. É um movimento de vital abstração. Instante pleno de olvido, esquecimento, alienação fiel à carne, átimo de luz meridiana a aquecer o escuro de ser. E o fluir-se do ser. É a medida da vida. Signo de tudo e signo de nada.

                Quando descobri que a contemplação leva à plenitude (e esta à vacuidade absoluta) me reconheci como um niilista exemplar, inteiramente possuído pelo vazio de ser, abolida toda essencialidade, mesmo a existência racional banalizada; se abolir o eu tem algum valor, não sei, mas em mim isso assumiu um poder inerente ao que faço ser, isso me consumou e traduziu-se num confinar-se irreprochável e mesmo catedralesco.

                No entanto, retornando ao e-mail anterior (de nosso mestre taciturno e impetuoso), assumo (como legislador apaixonado) que a lei básica do desejo (e profunda como a alma animal) é tornar-se realidade. Para isso são os desejos. Desejo é algo físico, nada psicológico. Algo que vem de fora para dentro. É energia encarnada no tempo instantâneo, tempo em forma de cifra desmesurada de hora. Porém o desejo também é liberdade, nunca mero arbítrio de ser ânsia de prazer. E algo que instingue a não cessar... a tornar-se infinito e muito além das realidades (mais fatais).

                Não desejamos o desejo, ele nos deseja. Impregna. Adota. Assume. Desejo é destino. O desejo, em última instância, cumpre a liberdade. E resolve o destino da palavra realidade. A imaginação deseja mais do que possível imaginante. Onde haja desejo, haverá rebeldia obsessão. Mas, como tudo o que seja humano, a finalidade última ou razão ou objeto do desejo é a saciação. A saciedade move o desejo. Impregna o ser e impregna-o do ser. O desejo vazio é contradição. Não o é o desejo deserto. O desejo sem objetivo é insaciável. Pleno.

                Desejar é ser? O ser é desejo? E, a realidade, o que é? O saciar-se é próprio da realidade? O desejo é o corpo? São questão da consciência ou do útero? Se desejamos (se tu, leitora caricata, desejas) é porque o outro (objeto do desejo) existe. Há dúvidas. Muitas. Pois o corpo não é consciência. Para o desejo, a liberdade é alheia. Para o corpo, a liberdade é a alma. O desejo de algo (ou alguém, dele ou por ele) é insubstituível. No fim da soma, a questão vital é se os corpos em desejo são reais. E o desejo se realize na solidão plena, farta, sem nesga de realidade que o disfarce.

                Tudo se resume na rebelião dos sentidos. Os sentidos todos contestando a realidade. De braços, olhos, ouvidos, gosto dados. Insurretos. Sentidos superando as lamúrias do mundo. Sentido do desejo e do que não seja corpo, apenas pele, leve como alma.

                Abaixo a higiene dos sentidos. Sua deseducação viva. Tudo pela uretra saia. As vestes falem. A realidade muja. As chaves da salvação dos sentidos morram. Viva a inviabilidade do hábil e da prazerosa certeza.

                Os sentidos reivindicam imagens. E dores mais aperfeiçoadas, inteiras. Pedem formas menos imaginárias. Simbolos reais de satisfação. Certezas de saciedade quíntupla. Mas, e se o desejo não for real? Se ao mundo humano comandar um simulacro de desejo? O que será da realidade, sem o desejo real que a realize in totum? Para sempre?

                O universo em que vive o homem, em sua infinitude e impermanência, em sua incorpórea dimensão, em suas bátegas insaciáveis de elétrons rodando em torno de núcleos veloces ou absurdos, infinitésimos, possessivos, em suas circunvoluções orbitais (e sinceras?), esse universo extenciado de tão magno (não sem ideia, talvez), esse universo, erotizado de atrações fatais, buracos negros impotentes, é maquinação de quem? Que deus desmesurado, como o imaginário dantesco e desorbitado teve o desplante de criar algo tão complicado? Poeta absoluto, talvez? (E quem criou tal Poeta, Deus é criatura de quem?)

                Só uma imaginação erótica, genésica, uma usina de doideiras disparatadas movida a demiurgos poderiam conceber o universo em que vive o homem, esse traste que rasteja malvados na natureza e a desola.

                Desejo, sim, concordo, que seja servo da saciedade. Nada insaciável é desejo, mas ao contrário. Algo que sirva, sim, à saciedade, não só à tal sociedade indesejável como a realidade em que ela vegete.

                No entanto, sobretudo, não gosto nem de desejo, nem de realidades. Só a criação poética interessa ao âmbito em que me situo. O meu sal é alto, largo, inabalável. Só a poesia tem a força capaz de criar novas realidades. E tantos desejos as satisfaçam. Para tal a poesia deve ser pura e forte, capaz de total desmoronamento de convenções e desliberdades. Futilidades e simulacros de que está feito a realidade. Capaz de extrair da própria ruína a verdade real. Desvele o que apareça (ou pareça) e revele a verdade da realidade, não sua máscara, mesmo pura.

                Foi a partir desse e-mail, dirigido à dúzia de pessoas, de credo, sexo, raça, gosto, lugar, tempo diversos, que começou o romance (real), da vida em dígitos, plena. De realidade e desejo. E Cernuda foi vital nesse processo complexo.

Murilo Gun

 
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS