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Dom, Nov

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     Porque nominei de absoluta a nova poesia neoposmoderna – e por efeito os seguidores dela seriam poetas absolutos (e o são, em contraste com os poetas relativos), um cronista ironizou: “um cara se diz poeta absoluto, subindo e descendo as ladeiras de Garanhuns”,

e citando Hegel e o espírito absoluto, criticou o apodo vital e disparou: absoluto é adjetivo inalcançável pelo homem. Que o homem não alcança adjetivos,  

      Ao precipitado (digo precitado) cronista, aplico Wittgenstein: “se não se sabe o que falar, que se cale”.

      No entanto, li o HEGEL, de cabo a rabo – e anotei, de Roger Guaraude, mas a base da poesia absoluta – desde 1985, é Wittgenstein, o filósofo que até Bertrand Russel estranhou (e não se relacionou com sua mulher – como fez com a de Eliot, porque W era solteiro).

      A poesia deve apenas sugerir (Mallarmé), representar e não explicar (Goethe) ou apresentar – e nada explicar ou descrever (Wittgenstein). Deve-se mais observar a  linguagem do que usá-la. Aí entra a fatia de vita contemplativa ou bios theoretikós, o absoluto poeta olha, mas não vê senão a essência (o âmago)... e nunca o acidente (o inessencial ou circunstancial).

      O aspecto hermético, esfingético, devorador, estranho de poesia lírica contemporânea é que, (conforme uma das máximas da concepção de compreensão de Wittgenstein), não se pode falar de verdade acerca de nosso próprio interior (eu íntimo), ou seja, acerca de nossas próprias intenções, propósitos pessoais, motivos (psicológicos ou não). O íntimo não se publica, sentimento não é poético. Para ler um poema absoluto – e chegar ao “absoluto” dele, é preciso estar fora dele e fora do ponto de vista (muitas vezes) do poeta. É sair do relativo, qualquer que seja. Parto daí para estabelecer o sentido lírico. Eis o dado propedêutico basilar para introdução do leitor na seara do absoluto poético. Sua maiêutica.

      Não como Rimbaud (que jamais voltou), mas tal qual Valéry, W. afastou-se da filosofia, fez silêncio filosófico por 10 anos, desde que terminou Tractatus logico-philosophicus (1919), até 1929, quando iniciou Investigações Filosóficas – veja-se a modéstia do título, após, portanto, os 10 anos de silêncio filosófico do Tractatus. E seu grande livro só foi publicado postumamente em 1959.

      O caminho do Tractatus até chegar a Investigações Filosóficas, é tal como se ele escrevesse – e pensasse, de dentro do ID. Ele dirige sua crítica filosófica ao ponto de vista acadêmico, tal o faço, opondo o poema absoluto ao pensamento poético relativo da Academia (em termos latos).

      Enfatizo: do interior idítico, corpo vasto, quase infinito, mar íntimo, contraposto ao átomo e ao cosmos, emerge o poema absoluto.

      Por outro lado, parto de uma visão ou concepção do mundo completamente formada e consequente (Weltansshuung), o que é vital para alguém se propor à poesia. Sempre arguo: como se pode fazer um poema, sem conhecer todos os mais de 20 poetas que, no século 20, ganharam o Prêmio Nobel de Literatura, pela obra poética? Salvatore Q., Seferis, São João Perse, Elithis, Vicente Aleixandre, J.J. Jimenez, Neruda, Eliot, Paz, Eugenio Montale, todos nóbeis, além de Jorge Guillén, Murilo Mendes, CDA, Pound, Lezama Lima, Borges (que mereceriam a láurea escandinava).

      Sem dúvida, há uma nuance solipsística na nova poesia lírica. O leitor absoluto adentra a fronteira extrema do entendimento – ou do mundo da poesia, para estar no interior do poema e poder olhar de dentro para fora – ou olhar de dentro o poema como que de fora dele (que está).

      O poeta deve buscar o emprego menos original possível da linguagem – original, não no sentido filológico, mas de emprego banal dela.

      Trata-se de reconduzir a palavra a seu casulo metonímico e uso sinedoquítico, e dela extrair – como o bateador do ouro, toda sua prata metafórica e significados escondidos. (não escandidos).

      E os temas menos temáticos (no sentido em que se usa temático hoje) possíveis.

 

 

 

 

 

Murilo Gun

 
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