04
Seg, Jul

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  à noite material da alma

à noite primal da poesia

 Indizível felicidade me traz a noite do Retiro.

Junto – ao pé – da amoreira noturna olho

grandes morcegos e um bacurau passa, soltando o grito escuro

o breu da noite limpa do páramo etéreo me cega e aviva

o entusiasmo. Os séculos eram rápidos para mim

presa da noite atemporal e minuciosa.

A horas ríspidas do dia ser exposto.

A presença da Poesia era estridente

Magnificando-me, era estrondoso e firme o resplendor da arte letrada.

Num lapso de instante, aboliu-se o tempo

e, ante a noite imóvel, vi o fugaz em mim

o universo suspenso ajoelhou-se na página.

Os espaços absolutos me percorreram, os olhos

do espírito se acenderam, todo o literal

esfumou-se e lúcidas estrelas me apaziguaram (com seu cacto de luz ferina e bela).

As águas do tempo, seu rumor líquido, ouvi-as.

Ondas de trevas e praias escuras me ouviram.

Uma espécie de transitória visão me reteve.

Todos os pudores abolidos, resta o eterno.

Todos os  poderes lassos, resta o homem.

 

Todas as vertigens reunidas, sobra o ser.

Vidente, contemplo o tempo, vejo a eternidade perto de mim.

Seu labirinto crônico penetro, ouço as ramas

da árvore única do éden. Crio a escavação

de mim, escavo o íntimo, e o publico, palmilho o todo

vou ao aquém da alma, cedo-me à poesia impura.

O eu interior é gozo, não é naufrágio.

Um raio de treva me desperta... e escrevo.

Murilo Gun

 
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