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Qui, Jan

destaques
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À poesia não interessa coisas práticas

listas perecíveis, culinárias expressas (e autoritárias)

objetos impúberes, corpos a laser modelados, nádegas de betume

descrições críveis, assoalhos de cafés sonâmbulos

mas seus contornos escuros, exatas bordas arredondadas

das mobílias pouco antes de incendiadas

borras, lodos (do limbo), carnificinas do homem.

Não são válidos objetos tangíveis, caixotes

gestos precisos, situações carnais ou escatológicas

que dispensem metáforas ou impeçam metafísicas.

Não interessa à poesia o sentido comum

previamente dado, consentido, desejado, inteiro

a sensibilidade temporã, o sentimento ordinário

(aquilo que v. sente todo dia e a toda hora

quer expressa-lo com as palavras que usa

para felicidade ou agrura do cotidiano crasso).

 

 Não interessa à poesia sensação (banal e pura)

de amor, ira, dúvida, heroísmo, covardia úmida

banalidades humanas, eitos de tédios

magote de desencanto desencadeado pelo desprezo

humilhação ou prêmio insuficiente

(mas sim surtos de melancolia

quando acompanhados de ilusões azuis).

Não vale para a poesia alma em fuga

aparências interiores, decepções viris

prantos que enchentes de bacias levam

para bem longe dos lenços salvíficos

dádivas esquecidas, crenças dadivosas, aromas escuros

mas sim a força interior das coisas

e os aromas carnívoros que enlouqueçam narinas

objetos contundentes, memória vândala de fúrias

e espelhos lascivos capturados pela palavra

no momento ázimo em que são salgadas.

 

Interessa as tardes da alma

os crepúsculos do limbo

os cômodos meio embaçados da noite

luzes vivas, abris cruéis

amêndoas, épuras, geometrias sujas

empórios de imagens, temores

e golpes de mônadas.

 

                               Boa Viagem, Biblioteca Borges

                               e Ateliê de Escritura Vital – 2010

 

Murilo Gun

 
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