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Qua, Jun

destaques
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Aos 600 mil irmãos matados.

 Labaredas de candura

acantonadas na feiura pátria

êmbolos grangrenados

cães rodopiando e nus

rosas de pus

minha sinceridade não é de safira

mas meus olhos são acesos e puros

de vergonha (latino-americana é cada língua

que despejo e choco o útero aborto da pátria).

 

Lágrima não é de vime

é de ferro e ácido solene

é de tório minha lágrima

de aço feroce o pranto.

 

Toda a sinceridade brasileira embalada

em pacotes sem destino

enlatada para desaparecer

a fardos asfixiados (espúrios)

a sinceridade condenada

lotes de carência afogados

a estéril eficácia (sono violento)

dos arcabuzes da dor despertada

já fumegam dadivosas ondas

dos incêndios dos oceanos cívicos

e árvores são abatidas (toras de loucura)

coivaras premiadas

viris chamas do criminoso fogo

à incontinente bandeira

prestam ardentes louvores

felicidades aos hiperbóreos de sempre

tísicos lírios te aguardam

te esperam frêmitos de círios

cruas razões ainda sangram

arrancadas da carne

como se arranca a um coração do peito.

feridas abertas do peito pátrio

como enlouquecidos manicômios municipais.

chocalha das lágrimas

dos que foram ao exilio da morte

conduzidos como carneiros ou touros ao atencioso abate.

mortos ao léu tornaram-se

apátridas almas, virótico espírito

portadores do mal tenebroso.

a eles negaram pio enterro

cemitérios foram proibidos, vida negada.

 

Sopro suprimido, respiração suspensa:

oxigênio passou a ser luxo

só a pulmão ricaço permitido

acesso da multidão à morte não vedado.

 

Murilo Gun

 
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