08
Seg, Ago

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

1.No fim? Nada!

 

2.Vê esse musgo, amiga

(a crescer sobre meu túmulo)

vale mais do que eu.

Está vivo!

 

3.Ó palavras lapidares

porém transitórias

que reuni nesta lápide precária.

O tempo não perdoa

(nem o mármore perdura)

e logo a hora as dilapidará.

 

4.Da morte nada se ouve

a não ser a mandíbula da larva

operando sobre o cadáver calado.

Ou o opróbrio do verme feliz.

 

5.A azáfama dos gusanos é uma lástima

inevitável. Talvez? Não, um triste fato.

Também ouvirás (amanhã leitora vã)

o silêncio apunhalante

ou ensurdecedor do nada.

(lápide médica de um otorrino curioso

do além corpo)

6.E os últimos dobres

do sino insano, as famosas

badaladas fúnebres, uivos metálicos

que só os vivos (ainda) ouvirão.

 

7.Agora pairo, espírito puro... e cago

na cabeça do mundo.

 

8.Morrer! O problema maior

é o desemprego que grassa

nas outras dimensões.

(Espírito também tem fome de ser

e valoriza salário mesmo inefável).

 

9.Não há luxo na tumba

(nem comodidade nenhuma).

Só o escuro brilha no ouro

escabroso dos gusanos, cujo maxilar

despede luz horrível.

 

10.A tragédia da humanidade

está à vista (e sem desconto)

nesta tumba imersa no lábio

impagável da larva.

 

11.Agora, ao menos, sou sombra.

Ontem, não era ninguém!

(de remediado ido)

 

12.Foi-se o rosto no vórtice supremo

fica a pá do coveiro ao relento.

(rima vital)

 

13.Depois que parti, reconheço

o mundo ficou maior

(e melhor).

Bem mereço.

(de um realista sem caráter)

ADENDO: Eu era o entrave ou escolho:

escolha, leitora en passant!

 

14.Condoo-me (leitora transitória)

de tua triste condição:

ainda és mortal.

Eu – te garanto – não morro mais!

 

15.Neste deserto âmbito

nesta insolente cova

(com o rosto bem enterrado)

nesta cela de terra inexpugnável

e solidão eterna, moro

para sempre.

Deste côvado frio vejo

bem nitidamente

a infinitude do escuro.

16.A agonia da morte

(e seu triste desespero)

já não espero.

 

17.Aqui jazo no meu lugar eterno (mas terreno).

Verdadeira residência na terra (de Neruda).

Aqui resido, sem CEP ou CPF. Em definitivo.

Sem teto, nunca mais.

(de um morador de rua ido)

 

18.Graças a Deus, as mandíbulas

dos tapurus são macias. E rápidas.

 

19.Se no fim só é o nada (e é mesmo!)

para que serve o absoluto? A eternidade é uma merda!

Murilo Gun

 
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS