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Sáb, Jun

destaques
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O avesso da palavra
verbo recomeçando, sílabas
da boca de Deus escapando
do alento edifício levantando


demiurgo arquitetando o âmago, a memória 
gerúndios devoluto da palavra o poema (alma da página)
povoado de enredos e máscaras
como inconstante Ulisses

(marinheiro de Odessa areado
no imo do Mediterrâneo
crivo de périplos
cena de mitos
eleito dos deuses e das fúrias)

No infinito destecer de náufragas trilhas
na tarefa de proa de concertar a quilha
à melodia grega da água
no ritmo azul da gávea
(em riste icônico o futuro voo da oliveira - ramo e poema)

estreitando o curso do espírito
no ar da veia
na arte do verbo
(na fidelidade ao mar íntimo
e ao marítimo chamejar
de sílabas aladas e hinos de asa).

Eis o tempo que pasta
vagalumes e galáxias
que bebe e se embriaga
de horas famintas 
fluxo crônico, hírico, cítrico
árduo e cônico espelho úmido, cúbico
passado presente
rito obtuso, data de sereias
sabre fragmentos
ângulos sobre relâmpagos
prado de ovelhas, silo de estrelas
amanhãs vis agonizando
no céu vagaroso de dezembro
(do regaço de ontem enlouquecidos
A ferida do porvir se abrindo
como a boceta de Pandora).

À memória do mármore
que transforma gestos mortais
em objetos eternos
dedos cegos em afiadas mãos de fídias.

No avesso do tempo o fim de Prometeu
acorrentado por íngremes águas
a penhascos rudes
(Prometeu soberbo presa
de sua prima maledicência
do sonho fogoso criatura ímpia).

A fio de greda Pandora
presa à caixa desditosa
a pedra recorrente de Sísifo seu destino
o recomeço eterno seu método
o esforço repetido
o curso do suor sem sentido
na colônia penal divina.

Narciso afogado no logro
ar ondulando ao hálito do vulcão verbal.

Narciso contemplando gerúndios d’água
o rosto do lago náufrago
o espírito atávico do tempo
o eco, o fluxo, o reflexo
imerso em ondas altas, escritura
e criação de mãos dadas.

(A cada salmo de Altazor
hiato de um canto côncavo
um edifício de palavras se levanta
como um sol de esculturais sombras).

Mar de marés invisíveis
é o mar da mente
mar doente
mar circense
mar mordaz
mar docente
pardo, árduo
como cimento
ávido, híbrido
como semente
como o basalto do céu que o cobre
e o ouro do mundo demole.

Ao acaso das naus a vertigem (do destino)
o curso, o recurso, o terno, o eterno
o ciclo que de Heráclito a Permênides cria o homem.

De Acapulco a Magalhães
a nau do homem (sua sina, quilha da vida)
brilha mais
do que estrelas divinas.

Musculoso crepúsculo
ocaso esférico.

Inabitável engenharia
geometria causada.

Reumáticas semânticas
sintaxes enferrujadas.

Eterno mar do tempo infinito escrito
no alfabeto alado dos pássaros.

(Tempo, vândalo
utensílio dos homens
(feito para o cálculo dos juros
e para as injúrias da história)
vasilha esburacada de Cronos

Dístico sigma
signo íntimo 
cisto hínico, cônica
fagulha da lua.

Mar imerso, incerto
incenso 
aroma marítimo.

Mar de Homero e Ulisses
(mais de Homero).

E a luz faz-se verbo e ômega.

 

 

Murilo Gun

 
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