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Sáb, Jun

destaques
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Aromas da alma se dessedentam
nos sulcos que suor cria na pele
amparam-se no rictus da saliva


ou nas corredeiras livres do sêmen.

Perfumes noturnos escorrem dos seios da sombra
para o meio-dia, auge do pântano da luz 
para as vozes do século (gargantas da usura)
as vogais do tempo lavam o árido
quando enlouquecem palavras
e imagens náufragas se levantam
contra férrea aurora.

Contra olhos da sede, contra
pálpebras da incúria
ou lodos da decência.

Mãos absortas do vazio adivinham a náusea
que nas veias cotidianas grassam.

No silêncio a libido eleva o brado 
e retumba o desejo nos intervalos da culpa.

Nos castelos da praia, nas folhas da relva
nos destinos da proa, na cavilha da quilha
no poente dos corpos cercado de estertores
e velas que rescendem a jardins putrefatos
ou afogam-se no odor das flores funerárias
o poema prepara o salto perverso
o bote ofídico na inocência da página.

Sobrevive um último verso, heróico e inútil:
resta o desejo noturno, estanque desesperado (humano).

 

 

Murilo Gun

 
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