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Sáb, Jun

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Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque

Vital Corrêa de Araújo – Coração de Areia – FUNDARPE

                É encantador o Coração de Areia de Vital Corrêa de Araújo, livro de poemas lançado pela Fundarpe. Concebido com apuro de quem enxugou léguas de palavras, estrutura-se, com consistência, em torno de um tema-título que se desdobra ao longo do livro, em cascatas de metáforas e símbolos. Harmoniosa sua poesia flui com naturalidade entre conceitos concretos – quase rudes – e imagens abstratas e sutis. Infinitamente sutis:  “...órgão oco e muscular, habitante da cave do tórax e bebedor de sangue...”

                “Coração, casa velha... turvo leopardo, andarilho rubro arroio louco, oásis súbito...”

                Palavras e imagens essenciais ao exercício poético – que não podem ser consideradas gastas – são usadas, sem medo, enlaçadas a momentos poéticos de extraordinária originalidade. E a originalidade é um dos componentes fundamentais da poesia, em particular da poesia moderna ou pós-moderna:

                “Lançado no mármore da eternidade este teu coração fugitivo e inúmero porque a tantos repartido como pão devasso”.

                A camada sonora dos poemas, sua orquestração, os valores relacionais dos sons, convidam à repetição dos versos, ao desejo de decorá-los (“cor-cordis”), na tentativa de incorporar seu ritmo, um tanto blakeano. E por falar em Blake:

                “Que tigre nele rege a paixão que ruge?”

                Assim, o tema “coração”, mote do livre e marcapasso de sua estrutura é resgatado do lugar comum e reinvestido de outras dimensões simbólicas. O poeta é consciente disso. O resgate é intencional e pleno:

                “Frágil taça de emoção, vaso de fecundo olvido, terra inútil, músculo vazio”.

                Portanto, pouco resta ao leitor que pretenda louvar tais versos. A poesia é sempre mais eloquente que prosa rude – sobretudo quando amadurecida e apurada como a que Vital Corrêa de Araújo acabou de estampar em livro. Seu trabalho é um claro emaranhado de metáforas, em perfeito equilíbrio, a um passo da escandalosa beleza do barroco, hoje considerado o idioma internacional da cultura. Suas formas se engrandecem em torno de temas universais e atemporais. A “Fuga do rosto” é um poema apurado. Bom em qualquer espaço ou tempo. “Dois quartetos de corda” é um encanto ao som de Mozart. Com seu Coração de Areia, Vital Corrêa de Araújo, conhecido poeta do urbano, renasce como um poeta forte.

                Então, que cesse da antiga musa o canto, enquanto desisto de continuar expressando meus entusiasmos por uma poesia que enaltece a si mesma.

 

                                                                                              Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque é escritora,

                                                                                              Tornou-se conhecida nacionalmente em 1990 ao publicar

                                                                                              o romance epistolar. Magnificat – Memórias Dia-

                                                                                              crônicas de Dona Isabel Cavalcanti. Médica e professora

da UFPE. Psiquiatra e autora de 5 romances do gênero

metaficção historiográfica.

 

                                                                                             

Murilo Gun

 
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