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Sáb, Jun

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            Um tema árduo que teço há tempo inútil e certeiramente – qual uma meditação vital – é o da unívoca desaceitação geral da questão crucial: a equivocidade absoluta (e necessária) da linguagem poética – do poema como condição da poesia (poesia).

Ir à metáfora (ou hipermetáfora, conf. Admmauro Gommes) ou à hipercomplexidade (cf Marcondes Calazans) é o caminho da poesia, sem o qual se vai a uma pré-poesia no mínimo.

            Isso desemboca no polifacetismo de entendimento poético, no aberturismo da obra poética, na avidez do polissentido, na infinitude da compreensão... e mesmo na total incompreensão do poema. Pois o poema não precisa ser entendido – ou seu entender-se diz respeito só ao poeta – e nunca jamais a nenhum leitor metido.

            O poema deve estimular a expansão do movimento criador da mente ávida de coisas novas, novas aventuras, desafios hieroglíficos, situações  esfingéticas, em que o banal é devorado (e o equívoco devorador).

            O poema produto da demiurgia e do delírio, fruto de inesgotável esforço imaginativo do poeta exige leitor mais imaginativo ainda capaz de abrir na veia do poema vias inesperadas de novos sentidos inesgotáveis. E nunca qualquer univocidade barata, como se costuma.

            Do tema da necessidade imperiosa do poema multiequívoco, trago o desafio: dos poemas a seguir alguém daria sentidos únicos, fáceis, visíveis, imediatos?

 

Moscas se repetem (repletas) na visão crítica.

 

Nenhum passo amplo esgota o exíguo

(vence-o, possui-o) porque apenas o atravessa.

 

A chaminé pende para o céu devagar.

 

Não há sonho meu. Há sonho mau.

 

O ermo lirismo, o muro contra o lírico novo

o deserto de hinos é inaguentável.

 

Toda penúria deve-se à evasão do imaginário.

(ou a sua impotência clara).

 

Se rato sai do silêncio do ralo

para olhar a lua, por que poeta não?

 

O dado da imaginação é o ato poético.

 

A ação poética é imaginária.

 

A luta poética é do âmbito do delírio.

 

Vale a pena sair (de si, do outro, de onde)   

para ver ruínas (lunares ou não).

 

Uma dose de lábio de cicuta vale o poema.

 

Do zero poético absoluto ao novo poema.

 

Todo poema deve ter o sentido corrompido

o significado distorcido sob pena de não sê-lo.

 

Basta de exuberância lírica fácil (ou falsa).

 

Qualquer estação (menos o outono) é poemável

(a primavera infernal idem).

 

Sentidos claros, se múltiplos.

 

Para cada leitor novos sentidos.

 

Pormenores de labirinto amam poetas

e suas sombras devassas.

 

Um eito de cálice para o vinho do peito.

 

            Se algum desses poemas (improvisados pelo delírio do id) for de sentido fácil, descarte.

            Pois a poesia não tem necessidade de sentido imediato. Ela reside na multiplicidade de sentidos (e de leitores insensatos o bastante para incutir outros).

            As palavras fazem o poema independentemente dos sentidos que o poeta queira impor.

            Se os adjetivos forem irresistíveis são substanciais.

            O muro do verão o poeta abate para olhar a cor do outono pelos olhos do verbo.

            Ou qualquer metáfora inversa para aflição do filósofo crítico.

            Excesso de claridade poética ofusca o poema.

            Da fábrica de imbricações vitais do verbo vive o poema.

            Da represa do sentido seca o poço da imaginação.

            Um verso é um verso: nada mais.

 

            Castelo do Magano (29/30/08/2015)

Murilo Gun

 
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