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Qui, Jul

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Não é nem uma questão filosófica, é apenas bom senso (um pouco profundo, nada superficial).

A confusão entre intimidade e subjetividade. Esse estupro do heterogêneo leva perturbação à mente (e ao sentimento daí decorrente, efeito pessoal confuso), além de trazer à tona emoções superficiais, brinquedos do ego. E, com efeito, o que é de Deus dá-se a César. As pessoas, acostumadas a ser tocadas pelo poema, (sentimental demais), a resolver a intimidade, a querer auscultar o íntimo (exibi-lo o mais explicitamente possível, publicá-lo) e gratificá-lo com usuras psicológicas e moedas de fácil curso na alma, buscam na poesia distração, charada, alívio “para os males do coração” (ou do mundo), enchimento de tédio, joguinhos, passatempo decoroso e enredos sentimentalóides, com respostas imediatas, em suma, simplicidades gentis e artesanato (lavor) parnasiano... e quebram a cara.

 

O subjetivo é o que é próprio e autônomo e não depende de outro ou de fora para ser. A subjetividade é um baluarte da alma, fortaleza, algo imbatível e hermeticamente incomunicável. É um ambiente mental a que ninguém tem acesso (nem o psicanalítico), a não ser em condição afetada e patológica.

A subjetividade é o que resta do íntimo, a última instância (antes de Deus?), retaguarda que resiste à pressão da natureza, da crença e do instinto, para vadeá-la.

A perda e o descarte (o lixo) do saber sobre si mesmo (alienado ao saber do outro) leva a pessoa à condição estática (imobilizada), a singrar no mar (profundo até) de suas superficialidades (idiotas), nas águas psiquosas do banal.

A posse do extático é vital.

O leitor brasileiro (de poesia) estatificou-se há muito, não evoluiu, parou no tempo da subjetividade... e perdeu o status extático, que é próximo ao sublime. E saber do mundo através de si... e esse si é uma nau cuja bússula (Rimbaud) é a poesia (o sal da alma). E nos leva a porto alto, a rumo dadivoso. Ou duvidoso, tanto faz (faça água ou sal).

O sujeito humano só se completa se houver consciência do saber sobre si mesmo para correta constituição e consequência de nosso ser (que não é uma maria vai com as outras qualquer).

A verdadeira (autêntica e real) subjetividade (nada a ver com sensibilidade) é saber algo (e muito) sobre nós mesmos... e que esse conhecimento não venha através de outrem. Não nos seja imposto de fora para dentro. Precisa-se ser familiar a si.

É saber de si como si mesmo, e não como outro. É uma compreensão do id (compreendê-lo, no sentido também de ter consciência de abrangê-lo, de sua existência efetiva, embora escusa, e ele, o id, compreender-nos).

A questão do conhecimento (inconfiável por natureza) poético é complexa, porque difere em qualidade do conhecer de si do mundo, conhecimento fincado em referenciações e paralelos, em comparativos e quantitativos, necessários à manutenção da vida física (cuja necessidade básica é a fome – e expedientes para satisfazê-la) e da espécie cuja garantia é o sexo). É o campo do “comer” bem. (Para ser fisicamente viável. Só.).

O problema do abstrato poético é que qualquer abstração é elevada e complexa, portanto num primeiro momento distante da vida que é concreta. Consequentemente, é necessário, para devida “compreensão” do poema, abstrairmos da vida prática (cotidiana, suada), isto é, da práxis (que também é complexo e cioso de compreensão adequada).

De certa forma, a poesia é a arte de revelar o si para si (não para outro: faço poema para compreender, não para ser compreendido), de “dizer” o que o id escamoteia, o que o real esconde nos mantos da aparência (o que o envergonha e leva-o a simulacrar tão perfeitamente)... e quer (o real da realidade tal qual) nos impingir a ferro e fogo. Que é o papel (idiota e patológico) do ego, esconder-nos... embora o id não deixe.

E essa é uma condição normal da realidade, que quer nos parecer (comerciária) estática, resolvida, definitiva (metafísica), para que não dominemos, fornecendo dela a nós apenas um arcabouço (esqueleto), uma máscara do real (para nós, sujeitos passivos da realidade, que se transveste de sina, e se maquia de destino).

E a poesia (absoluta) vai além de todo e qualquer simulacro (tolo, árduo ardil do real para nos cativar...) e escravizar. É próprio dela (da poesia absoluta) não ceder às armadilhas e ardis da realidade reinante, simulacrada, perfeita. (A verdadeira realidade é só aparência. Não há realidade, real, verdadeira, só a poesia absoluta).

O essencial é compreender que, ao longo do vasto, terrível, belo e bélico – bellum, século 20, ocorreram mudanças vitais (reais) na arte e na poesia. Foi um século doloroso, guerreiro, malvado, mas ativo. Picasso, Kandinsky, Lorca, Neruda, Borges e Joyce, bem dizem da medida da última centúria do finado milênio.

O correram como soi de ser radicais transformações na pintura, na poesia, na indústria, na narrativa, na ciência.

Veio a civilização midiática (o salto de qualidade das mudanças quantitativas verificadas e acumuladas desde Gutenberg). Veio a neurociência e o conhecimento do cosmos. O cérebro é o novo (ou outro) cosmos. Veio o caos fractal criador. A cognação e o infinito.

Isso exigiu (em face da mudança na essência – concepção, marcas, formas, da arte, conforme Hegel) uma transformação do entendimento a respeito da arte e de sua (nova) compreensão (e não extensão).

A objetividade (com o domínio crescente da natureza e o avanço tecnológico) se arma e fortalece-se, vigoriza-se, se tonifica. E exige contrapartida.

O Brasil, com tantas gerações perdidas para a(s) Ditaduras, tantos cientistas e pensadores perseguidos, expulsos, exilados, imobilizados, e o atraso universitário proposital para evitar a formação de pensadores (e políticos), não avançou, não evoluiu, falhou o equipamento. E não se transformaram as condições para entendimento e compreensão da arte em geral. Com exceção de um pequeno estrato, o resto... é resto. Daí, a conversa de arte culta, poesia para elite de leitores (na outra margem, a poesia popular, da massa ignara). Poema para especialistas. Algo como que vedada ao povo. E portanto excludente, sem valor para o outro. Justificativa do atraso. E assim mais atraso ainda (perpetuado). Poor Brasil!

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Murilo Gun

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