Artigos
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

No Brasil – à exceção de alguns críticos como Bosi, Massaud Moisés, Luiz Costa Lima, Ivan Junqueira e Secchin da ABL, Sébastien Joachim e César Leal – ninguém sabe o que é poesia.

Os professores dos cursos de letras não têm culpa no cartório pedagógico porque a sistemática de ensino vigente, os malfadados currículos flutuam ainda na era cambriana do parnasianismo. E eles aprendem Bilac e  cia. Somente. Coitados.

 

Poesia se faz com palavras não com ideias. Vide Mallarmé há mais de cem anos.

A grande, vital e exclusiva, porque única, diferença entre prosa e poesia é: prosa é para dizer, dizer tudo, de todas as formas (novas e velhas, machadianas o joyceanas). Poesia é para não dizer, dizer nada, indizer (é o reino do indizível a poesia).

Se você quer passar a leitor provável mensagem, recado, lição de moral ou de amor, contar algo, expressar uma emoção, comover, deleitar, narrar alguma coisa que seja, um fato, uma impressão, mesmo sugerir algo, em suma, dizer, USE A PROSA: ela foi feita para isso. Dizer coisas. A poesia é para dizer nada.

Ressalvo aqui a verdadeira poesia, aquela que é ínsita, cara, autêntica: a popular. Dos repentistas, cantadores, cordelistas, dos faraós de São José do Egito, Preto Limão, Gonzaga de Garanhuns. Esta, que deleita, comove, ensina, faz rir e chorar simultaneamente ou não. Emociona e alegra. O problema são os imitadores da poesia popular legítima, que a infelicitam, deformam. Os ditos eruditos que se metem a fazer glosa, refrão, copiando o heroico poeta popular legítimo, este que jamais envereda pela veia culta porque é voltado ao seu mister original e não se contamina pelo outro lado.

Que é o outro lado da poesia popular? É a poesia impopular, como a minha. Complexa, ambígua, dessimétrica, arrítmica, até desconexa, aparentemente irregular. Que se alguém entende, me derrota.

Porque a poesia não-popular é um objeto de palavras montado exclusivamente com significantes, desprezando radical e completamente o significado. Porque não quer dizer, quer ser. É a palavra em sua mais alta carga conotativa, tensão máxima expressiva. A denotação da palavra dicionária não tem vez na poesia. É do império da prosa, que também conota, mas mantém sempre um fio (ariádnico) lógico (nunca só analógico).

Quem leva mensagem não é poeta, é carteiro ou prosador (ambas profissões finíssimas).

O que acontece em 99,87% dos “poetas” ou (mau)ditos poetas brasileiros atuais fazem poemas prosaicos, em forma de prosa versificada, distribuindo cavilosamente o texto (discursivo, descritivo, narrativo) em linhas e estrofes, nas quais embotam rima ou rípio, e estampam em livro. Mera prosa (e boa prosa às vezes) versificada.

{jcomments on}

 

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
 
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS