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Qui, Jan

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Eu, Vital, e Generoso, Rogério, somos adeptos fanáticos (e de quatro) de Rimbaud, aprendizes eternos desse mago do verbo, de cuja alquimia bebemos, taça de palavras, lautos cálices de metáforas que nos sorvem, de cujo trago nos embriagamos como gambás ou místicos ante brinde de ascese tão sublime.

Do inefável aroma do verso de Rimbaud nasce a ebriedade real do espírito.
  De um modo estranho trouxe Rimbaud a Garanhuns. Nos últimos dois meses estive quatro vezes nesta cidade alta e renhida, alpestre e passarosa, de quem tenho o hábito total.
 Em Recife, num edifício bem defronte do Parque Dona Lindú possuo o apartamento (14º andar) em que vive minha família. Junto a este, na mesma Av. Visconde de Jequitinhonha disponho de outro imóvel (este com 30anos e mais extenso: 180m2) ocupado por livros: 10 mil volumes, quilômetros de livros e de papéis, revistas, documentos, recortes de jornais, coleções com mais de cem exemplares da antiga revista Leitura (de 1944 – eu ainda não nascera a 1960).
 Ao recolher na biblioteca Borges (o nome do tugúrio de livros), algo para trazer a Garanhuns, por acaso, estavam livros e escritos numa pasta, que trouxera de uma das três viagens a Venezuela.
Comprara numa imensa livraria no subsolo do Teatro Nacional da Venezuela (Cólon), em Caracas traduções de Rimbaud. E vertera parte do castelhano a português. Em especial, Alquimia do verbo, de Estação no inferno. Além de Iluminações.
Revi-os do pacífico interior do Mosteiro de São Bento, de minha janela de pássaros e abelhas (a olhar um deles bicar alpiste do beiral), e agora revisito-os ou reviso-os.



 Eis Rimbaud o vidente que delira
poeta descomunal cujo viço suplanta
os cumes da volúpia e faz-nos
beber do verbo a certeza de ser
(e a cor do futuro).

Eis Rimbaud abrindo o filão do verbo profundo
potencial da linguagem
elevada a novos cumes
cansada da planície
e do marasmo.

          Eis que vêm a mim
poemas rimbaldianos livres como pássaros
libertos de toda vã convenção
vivos e crus como a vida libertos
de todo arrazoado de rima (obrigatória e posicional)
de todo emaranhado da pureza
das emoções vazias burladas
e tristes condições pessoais galgadas
ao estatuto da poesia oficial
ou ordenamento do sentimento até
poemas libertos
do arrumadinho de trena
de todo ábaco libertados
de todo cálculo escapos.

 Rimbaud, o imenso Rimbaud, era um
indevoto cujo joelho não se dobrava
a nenhuma utopia usada
a nenhum ídolo ou poder poético dominante
estranho ao humano
que ultrapassasse a alma
(ou os esses do espírito)
adornasse de usura
ou de escrúpulos de prata a poesia.
Ou a retradicionalizasse para mantê-lo
como fora sempre.

Eis o verbo Rimbaud
espasmos de afeição
voracidade da palavra
poemas convulsos
como a beleza, febris como o delírio
a desrazão pura como escalpelo
sol do verbo como candelabro.

 Para verbo tão febril a eternidade
fica de cócoras ou de quatro.

Eis o Shakespeare enfant
como o batizara Vitor Hugo.
Ou o místico selvagem de Claudel.

O abismo dança, baila
o precipício do verbo
(a palavra precipitava em beleza
da retorta ébria do francês) flutua
nada abala Rimbaud
e o seu destino de ser palavra
fulgurante, majestosa, inacessível.

Todo o sentimento escuro do homem
trazido à tona (da náusea humana)
do verbo rimbaldiano extremo
unção de palavras sem pejo
sou banal alma.

Murilo Gun

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