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Sáb, Ago

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Choques políticos têm percorrido a veia brasileira, criando trombos,infartando a democracia, com figuras folclóricas, como Jânio Quadros, João Goulart, Collor, Itamar Franco, Sarney, guindados ao posto de presidente da república, legitimamente vírgula, deixando atrás de si um rastro duvidoso, um sabor inautêntico e viciado de que as coisas não deveriam ser assim.

Todos chegaram (ou saíram do poder) por acidente, corrupção, desastre, ineleição, renúncia, deposição legal, ou seja, fortuitamente, e não por escolha direta, sincera, autêntica e livre do povo. FHC e Lula foram os únicos eleitos sem vício, e bem que corresponderem.

Outro acidente vascular político no cérebro da nação brasileira foi a infusão de sucessivos e grotescos líderes, marcialmente entogados, fila generalizada de intrujões patetas bonecos movidos pelos cordões da geopolítica vigente; títeres engalanados, com hirsutes medalhas ladeando o peito estufado de vão orgulho pela missão antipatriótica que lhes foi imposta, ordenada e consentida pelos leões do pentágono; verdadeiros fantoches tecidos pela conjunção infeliz da guerra fria e impulsos de independência neocolonialista que produziu o ambiente e a estratégia geopolítica fertilizadora do Golpe de 64.

Foi aberta a caixa de Pandora de atos autoritários e violentos (física e moralmente) que infelicitou a Democracia e o Direito brasileiros.

Toda esse débacle institucional desabou sobre o coração e a mente do povo, avalanche que durou 20 anos, e que nos deixou politicamente eunucos.

A chusma de generais elevados à condição de presidentes excepcionais atuou como parte de uma engrenagem de destruir pátrias (futuras), sufocar gerações, obstar a formação de jovens e renovados quadros políticos, isolar ou anular líderes (ou sua expectativa), exilá-los ou pasteurizá-los. Tudo isso devidamente chancelado por nossos “políticos” “inorgânicos”, ao longo de crassos vinte anos. 

Hoje, nossos quadros políticos são da pior espécie, a exceção de uns poucos onde se incluem vários pernambucanos, e, pior, não têm a mínima consciência disso. A maioria é composta de pessoas que conviveram “democraticamente” com o Golpe, serviram a um estado não-de-direito, ou seus descendentes, todos preocupados com os próprios e caros umbigos engravatados. Vejam a série de escândalos incessantes que infeccionam o parlamento brasileiro nesses últimos 10 anos. Os deputados e senadores não se consideram mandatários do povo, por força da procuração do voto, mas vacas sagradas acima da lei e da ética.

Atingimos o limite da desfaçatez. A representação política é falha e viciada. Como não houve nenhum gesto ou movimento para estancar o sangramento de nossas instituições vitais como Senado e Câmaras (que são reflexos de partidos pútridos e artificiais criados sem base popular legítima e sem objetivos e programas sustentáveis), o Judiciário assume esse papel (vício político), cassando governadores, após 2 anos do exercício do mandato, como ocorreu na Paraíba, no Maranhão e em Tocantins. Num ato legítimo de complementariedade ou substituição do Parlamento (que o aceita, sem ao mínimo resmungar).

É esse cinismo que faz o Senado convalidar os “atos – espúrios – secretos”, com outro ato secreto, conforme o jornal A folha de São Paulo denunciou. Quem sabe, numa atitude homeopática, de que o semelhante cura o semelhante. Num desprezo explícito ao eleitor. E mais ainda a nossa inteligência.   

E os eleitores apenas assistimos a esse deplorável espetáculo de cinismo e truculência política. O eleitor não cobra porque não dispõe de dispositivos para isso. Os mecanismos de controle da qualidade do Parlamento não existem.

O meu filho mais novo, Murilo Gun, ator, escritor, pesquisador e comediante, está escrevendo um livro sobre o estado do político brasileiro, também com viés satírico, e propõe de dois em dois anos uma eleição às avessas para eliminar o mandato dos mais votados, que usaram indevidamente essa concessão do povo.

Nada é mais exemplar e sintomático dessa baixeza política do que a recente rebelião do baixo clero, deputados oportunistas que usam o mandato em pura e completa causa própria, que simplesmente elegeram um corrupto, para a Presidência da Câmara, 2º substituto do Presidente da República. Com o Vice enfermo, o fulano poderia ter sido presidente.   

Está em lide a questão da delegação política.

Os mandatários políticos povo (deputado, vereadores, senadores, prefeitos, presidentes, governadores) são, conforme a fórmula de Marx, “produtos da cabeça do homem que aparecem como que dotados de vida própria”. Eles atuam de modo a parecer que não devem senão a si mesmos (autonomamente) a existência que lhes foi dada pelo povo,pelo voto.

E muitos de nós, muitas vezes, adoramos essa criatura pelo mal que nos fazem, pela soberba, superioridade, desfaçatez e hipocrisia, com que agem, às nossas barbas molhadas. Idolatramos e nos dispensamos de criticá-los. (O que não é o caso do autor de Sátiras Políticas (porque rir faz bem à saúde).

Há um amplo espectro da exposição diária dos males políticos, reflexo das mazelas e desavergonhada ação ou omissão dos nossos (ossos) parlamentares, que se dispersa e passa despercebido.

Mas não para a pena, atenta a impiedosa, de um escritor observador e detentor de alto espírito satírico puro, próprio do brasileiro, desde Camonge e Gregório de Matos, além de Vieira.

Rir de nossos “hábeis” políticos é necessário (e faz bem) para assim estocar, ridicularizar, prodigalizar o risível de que esses políticos politicalhados são merecedores natos, pela canalhice explícita e pública com que nos brindam, não mais impunemente. Por causa de Paulo Dantas, já completando outra coletânea satírica.

Impressionam o nível, a amplitude, a profundidade e o vigor da “leitura” de Paulo Dantas sobre o “Folclore” em que se tornou a política brasileira, com a “qualidade” do político brasileiro hoje.

Os mecanismos da representação política na democracia são expostos em suas fraturas.

Paulo trata com elevado espírito satírico o assunto mais sério de um povo, que é a delegação política, a escolha/eleição (e por que não deseleição) de seus mandatários políticos.

O vazio do constrangimento moral (que o político maior Roberto Magalhães reconheceu, e o fará desistir da política formal), a indiferença ante a súcia de escândalos, a tragédia diária de Brasília, a crise quase permanente banalizada, a corrupção considerada um aspecto “chato” do negócio político, tudo isso, que representa a consciência cínica do político brasileiro dos últimos 40 anos, Paula Dantas Saldanha capta, com minudência e espírito em riste, destrincha, analisa e denuncia satiricamente, expõe a público, com a pinça do sarcasta bem afiada.                

 QUEM É PAULO DANTAS SALDANHA?

 Autor de uma plêiade de títulos publicados, compondo uma obra de subido valor sociológico, político, filosófico, jurídico e literário.

Advogado, atuou com sucesso absoluto na área de Direito da Família, ganhou assim independência financeira e se dedica a escrever.

Com mais de 10 título publicados, dirigente da UBE de Pernambuco, Paulo (devidamente assessorado por Sílvia Carmem Saldanha) é um escritor literário, isto é, escreve bem, certo e certamente com o apoio e a substância de quem detém os segredos da prosa artística. Também é um pesquisador. Compila apotegmas de sua própria lavra e verbetes sobre Direito Familiar, e publica livros sobre o assunto. Tem várias coletâneas de crônicas para rir, chorar e pensar. E agora envereda pela sátira política, com força e astúcia.

Submerso em seu ofício de ver e dizer o que assistiu de modo satírico para que a verdade se desnude, Paulo Dantas me confidenciou que o gatilho foi entender que pátria não é um termo geográfico ou literário, mas sim a imagem e a realidade dos que vivem ao nosso lado numa terra chamada Brasil.

Parabéns, Paulo Dantas, pela obra literária singular que realiza, pelo dom que detém  e nos transmite, através dos livros que publica, pela autenticidade com que se situa no meio literário, honrando-o, multiplicando fecundamente sua concepção do mundo, assim tornando-o menos duro, mais habitável. 

 

 

Murilo Gun

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