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Qua, Jun

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Admmauro Gommes,

poeta e professor de Teoria Literária da FAMASUL (Palmares-PE)     

Nos primeiros momentos em que tive contato com a poesia de Vital Corrêa de Araújo, a imagem que logo me ocorreu foi a que quando eu era ainda criança, acompanhei meu tio em uma pescaria. O filme repassou completo em minha mente, durante a leitura de seus textos. O meu tio pescava em uma parte do pequeno rio que fazia uma cachoeira de aproximadamente um metro e meio. No desaguar do riacho, os peixes entravam em atrito com as pedras mais profundas, pulavam e saíam das águas como se tivessem fazendo acrobacias, e voavam. Cada um me surpreendia porque eu não tinha ideia de que parte do rio eles apareciam. Esta mesma cena me surgiu ao ler os poemas de Vital. Parece que as palavras deste poeta, quando entram em atrito com a folha d’água do livro, sobressaem e nos surpreendem, aos pulos, enigmáticas.

Às vezes, não dava para descobrir a espécie que saía das águas, na época do meu tio. Assim, como em um rápido olhar, quase não decifro o sentido metafórico da palavra vitalina. Aliás, como ele mesmo propõe, "o poema é algo trisambíguo", pois vai além da ambiguidade que já é polissêmica, na mais simples expressão. É que os peixes saem das páginas dos poemas de Vital, como as metáforas voavam no riacho. Eu não sei por que essas imagens se confundem. Talvez elas me comuniquem algo ligado ao doce da infância, ao vazio indizível, perceptível apenas nas linhas do texto e do anzol, como quem brinca com peixes ou pesca palavras.

Para mim, a poética de Vital triunfa emblemática, pois eu não sabia de onde vinham os peixes que se renovavam, também não decifrei como nascem as combinações inusitadas em Vital Correia. A cada palavra é um peixe diferente, conotações inauditas que nos levam a contemplar a correnteza caudalosa de seus versos. O mais interessante é que o rio não se esgota, é que a efervescência das letras não encontra um fim, quando continuam reinventando a vida, o desejo de interpretar o espetacular conflito do homem com ele mesmo.

Como aqueles voos cegos de pássaros/peixes que duravam fração de segundos para que saíssem da água e para ela voltassem, os textos de Vital também são assim. Apenas um breve olhar já é suficiente para que a mente fotografe as águas do livro, ou a página do rio. As imagens tanto da minha infância quanto as de agora, pela ótica desse poeta, mesmo sendo em rápida observação, permanecerão por muito tempo em minhas retinas, fruto de algo sempre novo, saindo do velho rio, contudo indecifrável como é a essência do próprio ser, nessa pescaria sem fim, que é a vida.

Vital Corrêa, Admmauro Gommes e o Professor Orlando, na Biblioteca da FAMASUL

 

Murilo Gun

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