09
Dom, Maio

A poesia é o uso desviado da norma, distorção involuntária da gramática, transgressão constante e intensa (filológica, dicionárica ou não), em especial lexical, da palavra (ou sua desordem vital) e da ordem sintática vigente. O caos no cosmos do verbo. É o sentido alterado da palavra (ou das palavras em coito sintagmático, em pleno orgasmo metafórico). A alteração vexaminosa do sentido ordinário e plenamente estabelecido pela instituição (conservadora e mesmo reacionária) da gramática.

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Quando li Elementos da linguagem, de Martinet, em 1985 (conforme datação manuscrita, não a carbono, mas a grafite), o que foi vital a mim como “curioso” de “entender poesia”, deparei-me com o polêmico problema de aplicação à poesia dos dois níveis de articulação da linguagem. Denotativo e conotativo. Primeira e segunda ou dupla articulação.

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Envolta em matilha de brilho, com níveos dedos-rosa, em riste a cor que Febo semeia, a manhã avança e junca de claridade a terra (a treva desanca); das aves o coro de arrulhos acorda o mundo todo, do mar ao sertão o agreste incêndio do sol benzendo o vivo; o ruído dos arroios (incluindo o córrego dos Coqueiros, que do balde do açude eleva a harmonia aquática ao ouvido das nuvens) brota com o  rosto da aurora; a flora, o zéfiro, a água, o vento, a voz, o céu bradam, e as cores do grito, e o vôo da luz, inundam ruas e jasmins; a latada de cidreira, o abraço da malva, os gerúndios de mostarda, batalhões de camomila, alfarrábios de lírio, bálsamos de alfazema, tulhas de ervas doces ,redondilhas de flores, dançante zumbir de abelhas, néctares voando, pólens sorrindo, tudo une e anuncia a manhã que desponta, pressurosa e ridente, em Vertentes, terra da palavra e do coração, seiva e lume, corça e gume, leito e sono, sonho e nume, graça sem sombra, silêncio que fulge, aroma armazenado no ar montanhoso, respiração de pássaro, Vertentes, onde a lua vem dormir e onde o sol acampado espera, noturno lince, o sono lunar, para seu rosto  vertentense exibir à vida, abrir ao mundo o sorriso lúcido, o cintilante esgar do céu jogar em ímpetos quânticos; enquanto o cântico dos regatos sobe, raios certeiros do Júpiter agrestino acertam o peito da cidade-mãe.

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O leitor de Poesia Absoluta (como o temos às dezenas, no Curso de Letras da FAMASUL) tende a reconhecer nele, em si (dentro do si) qualidades extraordinárias, que estavam adormecidas no berço esplêndido da página da alma, aprisionadas como a poesia.

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Poema conjetural é um poema com 44 versos, distribuídos em 2 estrofes (uma, com 38, outra, com 6 versos), vazado em endecassílabos, em métrica espanhola.

O poema pode ser dividido em 10 blocos nítidos, constituídos pelos versos 1/5, 6/12, 13/17, 18/21, 22/24, 25/27, 28/31, 31/35, 36/38 e, última e segunda estrofe, versos 39/44.

 

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VCA

O uso comum, normal, ordinário, habitual da língua faz-se com que a usemos automaticamente, por hábito. E mesmo inconscientemente, no sentido de reflexo e condicionamento. Facilidade. Aptidão. Habilidade. O que seja comum é geral, fácil. De entender, responder, comunicar.

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A literatura – parte da totalidade da cultura, é um fenômeno específico, não do âmbito da razão, porém do campo da sensibilidade, isto é, do espírito, característico do espírito humano, em sua plena evolução. Não evolução geológica, ou seja, meramente temporal, mas produto de um processo do desenvolvimento cultural (isto é, não técnico ou científico). Cerca de 100 anos antes de Cristo, em especial no século V a.C. e nos começos dos tempos históricos, 100 anos antes e 100 anos pós-Cristo; a literatura (em particular, a poesia) alcançou seu apogeu, em Grécia e Roma.

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Separar o poeta do leitor ou do não poeta

é difícil, porém necessário.

 

O poema começa finito, relativo

situado, datado... e vai além

da caneta ou do teclado

(poeta absoluto é triste. E íngreme).

Poeta que inventa o que não cessa de ser

o que não teme o relativo

ou a fronteira, ou o limite falso (fácil

que é o mesmo)

que excele, excede até

que reste o absoluto.

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Murilo Gun

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