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O conceito poesia absoluta desenvolvi desde 1991. Comecei a montar tal teoria na Venezuela, num velho mosteiro encarapitado em lombo de colina ingremíssima em San Antonio de los Altos, perto de Caracas, onde funciona a UTAL (Universidade dos Trabalhadores da América Latina, obra e direção de um pugilo de heroicos sindicalistas avançados).

A partir de 2002, Cláudio Veras, professor de Literatura em Heidelberg (paraibano Cláudio Veras B. Cavalcanti), contribuiu para dar substância filosófica e dimensão estética a tal conceito. A obra Destino poético de Vital Corrêa de Araújo (edições BAGAÇO/IMC) 2010, de Sébastien Joachim foi vital à teorização definitiva de Poesia Absoluta. E o professor da FAMASUL (Palmares) Admmauro Gommes deu-lhe acabamento final e brilho duradouro.

O alicerce vital de tal conceituação está enraizado, desde 1980, na obra literária de F. Holderlin, e, a partir de 2001, em Heidegger, em especial na obra Holderlin e a essência da poesia (que adquirí em Lisboa). E em Neruda (desde 1980). São residências. Na terra, no éter e no ser.

Tudo se aclara quando se foca no ser. A intencionalidade não é da consciência (como em Husserl), mas do ser (como em Heidegger). É crucial ao completo estabelecimento das bases e fundamentos da Poesia Absoluta (PA) o conceito “aleluia”, que engloba, encampa, devora as visões de verdade e relação. São uma só coisa verdade e revelação, Ser e natureza.

É tudo se resume na sublime descoberta de Holderlin por Heidegger: A poesia é a função do ser pela palavra. E o amaro Cioran, que nem a Deus perdoou, é o sacerdote do verbo vital. Eis o prato principal: ontologia de Heidegger com salada de batata e alho dourado no azeite servida à francesa.

Hegel ao considerar possível o saber absoluto, instigou o desenvolvimento cabal do conceito de PA. O filósofo luso Fernando Guimarães predica: “O amor da sabedoria (de raiz socrática) Hegel repudiou implicitamente ao admitir que o saber absoluto era possível e atingível. Contra este vaticínio hegeliano, o pensamento lescerá de novo à pobreza (ou pureza, o que é a mesma coisa) sua essência provisória. E, nesse momento, a linguagem será a linguagem do Ser, como as nuvens são a do céu”.

Retornando a Heidegger, enfatize-se a genialidade e precisão do filósofo de O ser e o tempo, quando dispara: “O ser dirige-nos a palavra”, através da poesia (absoluta).

A Poesia Absoluta é uma abertura do ser ao ser (ao ser o poema absoluto).

A linguagem da poesia é original e fundadora. Tal o papel que desempenhe na vida e na visão, no imo e na concepção ontológica do ser (humano) e no ser das coisas do mundo (também humano).

“A linguagem (que e de que trata a poesia) é a morada do Ser (onde o homem habita)”. (Heidegger). É pela linguagem, em especial, a poética, que o homem habita a residência do Ser na terra.

A poesia (absoluta, inclusive e em especial) tem vária vertente ou ângulo de consideração. A vertente existencialista da PA é o homem (não como ele, célula , tecido, fenômeno social), mas como ser em ação. Eis a práxis poética.

Daí não se pode reduzir o poema absoluto à mero psicologismo (mediante falsas abordagens de índole emocional ou particular), que descambe passivamente para o sujeito (como ego).

É pela linguagem, portanto, que o ser adentra a consciência do homem e a modela de modo humano real. O destino do verbo é o poema. A palavra enlouquecida dos sais do mistério.

Em face desse universo metafísica e dessa física do medular conhecimento de si (do homem pela palavra poética mais funda e vital que a religiosa), em função dessa imersão na realidade e no mistério comungados e na verdade e na relação unificados, a poesia é interior ao mundo prosaico. E anterior ou superior à qualquer lógica. Isso porque linguagem poética só se subordina à imaginação.

Então, poesia não é expressão da alma nem manifestação cultural: é algo não relativo absolutamente autônomo. A poesia absoluta revela o ser sobretudo. É a poesia como emanação do absoluto.

Daí, não se aceitar poesia a reboque do ego, submissa a leis e regras lógicas ou a velhas técnicas antepassadas. À masmorra da versificatural. E a ânsias de sons maviosos finais.

Essa dimensão do absoluto (que revela a inquietação essencial do ser homem) pode trair perturbações para frágeis leitores que busquem no poema particularidades.

Há no poema comunicação interior. Não externa. Há vário dizem, vozes (veludosas também), porém restritas ou estendidas no espaço interior, que é o literário. No âmbito ambíguo, na dispersão de sentido estão, situam-se, jazem, pairam o universo e a unidade da poesia. A poesia é (quando escrita) e continua sendo pela leitura.

Murilo Gun

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