07
Qui, Jul

destaques
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Facheiros alçam-se áridos

(antes dos arrebóis)

silenciosos candelabros

espaduados menorás, vergeis rezando

braços verdes, preces arbóreas

sais de orvalho copulando com sombras

invertidas parábolas, cálices

pétreo céu sustentando

colunas que fustes aureolaram

Deus esperando alguma lágrima

Todopoderoso pouco piedosa cobrando pranto

dos devotos áridos, faces de basalto

cardume de cardos abrindo gretas

de sequia nos alpendres das cisternas

 

Sino de luz dobrando o espaço, vórtice

vermelho rondando o milharal

vértices de silêncio iluminando a relva

o espetáculo sublime e áspero do cacto

do crasso átrio da caatinga pássaro

de água e espinho, de palma e dedo

verdes árduos renascendo dos olhos

ante feérico altar do meio-dia

por peras do solaço alimentado

pelos pinos da canícula pregados

nas tábuas de suor do solalto

sacrificando a tarde e seus cajados

canários bêbados da miragem molhada

sob órfico mormaço sede dura

 

mais do que eternidade cansada

de tão seco o páramo que ela abraça

estralando em sulcos do chão que arde

como estrelas sedentas do líquido brilho

por cegas vastidões sonegado.

 

Meio-dia o urde mais alto monarca

catastrófico fogo bola embalado

setas velozes pele do solo cortando

sertãs almas alvejando como navalhas brilhando

cetro de Zeus, aljava de Helios

ser ígneo que cavalos de Apolo conduzem

pelo ancestral espaço

aos nichos de pedra roubada do sono

da água sonâmbula e sublevada vapor escravo

 

Signo que a argúcia do cardo ilude

que aridez de Deus liquida

a sede o suor escorre pelas sílabas

do sulco lavado no ávido lenho

espreita a magnificência árdua do cardo

esperança que reste ao sêmen do tempo

fundando a vegetal inocência

que a palavra viola consagra

dedilhada do ombro do lajedo

da acústica verdura a sinfonia sonhada

os gérmens, as velas, cachos de pólen, esporos

de água, tudo abeirando o desespero

olhos bem altos, orações germinando

frutos da boca de Deus se fazendo úmidos.

 

A opúncia deixou atônitos os espanhois.

 

Mandíbulas dos touros detrata

palmas de opúncia ubertosa seiva

minando como se fosse luz de estrela

a torna espessa pasta, nata verde

(como te querem papilas cerradas

do bovino moinho, boca de granada

 

rende esverdeado creme

lucros peculiares, quilos

à pecuniária rês gera

preço e proteína

 

avultada e longa manada (usura do úbere)

suíte de couro homenageia ágio

e debêntures arrancadas à carne.

 

Até a fundação do ovo

(ab initio só existia Deus)

do útero das galáxias extraído

curso do mundo, cimos de fumo

era escuro, inocente, puro

imobilizado num átimo, num instinto encantado

quase coagulado num sítio ou veia

que o Demiurgo imaginara.

 

Incêndio de sarças anunciava a aurora

brotada das cinzas da noite cremada

canteiro de claridade florescendo

ventre do sol se espalhando

no ígneo e gótico jardim demiúrgico

que mênstruo da manhã avermelhara.

 

A opúncia deixou atônitos os espanhois

 

Opúncia cacto de espinhoso fruto

de gume verde e flores noturnas

cujos estômatos tenazes exibe

como prêmio árduo lídimo trofeu ergue

ao homem e ao mundo

e dilaceradas cerdas proclamam

a verdade é vegetal, o futuro é verdura.

 

Deus fundou o sal e o sangue.

O que significa claridade para o homem?

Por que as sílabas da manhã no trevo escuro

carrefur da náusea não são pronunciadas?

 

A opúncia deixou atônitos os espanhois.

 

Assim como óscines amam

néctar de flores opúncias

dons desertos idolatram

ausência d’água fortalece estames

(estremece sede horizonte ardente)

aridez conflagra sua força verde

vértice solar, lâmina jupiteriana, sal lunar

acendem coração vegetal

semovente pântano do rosto

ânimo instala na veia do mundo

ilumina sua energia vital.

 

A opúncia deixou atônitos os espanhois.

 

 O poema ceva a página

no branco pasta. A opúncia resta.

 

Murilo Gun

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