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Qui, Jul

destaques
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 (última noite de maio 1999) estupefato

e delirante Patti Smith... e entendi Rimbaud.

(De quem Lady Gaga recebeu influência vital

não influxo normal, legível, concreto no entanto).

Me assombra (na acepção devastadora o id) a poesia

chinesa (da Tang) e muito o japonês magnífico

e imortal Bashô. Gozei.

Patti musicou Rimbaud. Provisionou o som ébrio

tirou proveito (e préstimos) da música absoluta

e embriagadora da obra de Rimbaud. O barco

bêbado trinou na campina do mar adentro

a quilha apontada ao infinito afora. Pousou

no arvoredo das algas. Aportou na eternidade humana.

Buscou abrigo das águas do rock and roll.

 

 Patti é o céu da cena.

O cais da loucura o poema.

O vulto do tempo.

A praia do alento.

O pouso do vento

na modorra do momento.

Ouvindo-a nítida me vi em meio às ondas

espessas dos mais altos sintagmas da vida

abstive-me de não ser

e me alcei a lances distantes da tecnologia

do lábio carmim da morte sem fim.

 

O lirismo (meio que violento, meio casto) beat

me acompanhou como um uivo afora (na vida hínica).

A poesia americana (dos anos 60) foi exatamente

meu segundo alumbramento.

O primeiro foi José Gomes Ferreira em 1973.

Quando nada sabia de poesia, era Diretor Geral da

Receita do Estado Amazonas e detinha meros

27, 28 anos, e descobri numa livraria inominada

 

da Zona Franca Poesia militante volumes 1 a 4

de JGF... e comecei a flutuar da cama

do Líder Hotel onde morava possuído do êxtase

estranho e indecifrado provindo da fonte ímpar

daqueles textos magistrais lusos. Antes de FP.

E depois.

O Walt Whitman, de Richard Chase

(da Martins) encontrado num sebo em

São Paulo, anos depois, foi vital a mim.

Walt, Ginsberg, Burrougsh e Ferlinghtti,

além da prosa queimada de On the road

e cia me encantaram (ou viciaram) como

cânhamo, por anos. Eles vinham dos anos

60 e me fascinaram nos 90. Se há

algo no entanto que nunca ouvi e não gostei

é o tal rap. Tenha paciência. Não é música.

É outra coisa. Em liquidação. Pesada.

 

Se improviso em poesia? Sim, escrevo a esmo.

Noite adentro, madrugada afora, no meu

Castelo Magano (em Garanhuns) ou no

Reino Encantado das Águias em Água Preta

onde se situa o Centro do Universo.

 

Improvisal é meu estilo. Improvisar é o

contrário de planejar cenas, contar sílabas

formalizar rimas, arrumar palavras (no

sentido de manipular), manter o controle

da escrita emocional, versificante, em busca

de lendários fechos de ouro (ou sentidos planejados).

Sim, improviso, no sentido de

Bach, imerso no órgão provocando a canção.

 

Não sou poeta amador nem profissional.

Sou poeta e pronto final. Provas: os últimos 10,12

livros que publiquei (de belíssimas capas e de

poesia absoluta) não os lancei. E assim

evitei dúzia de bobajadas e fala-fala.

entrevistações, fotos com camisa fotogênica

e perna sobre perna com sapato de bico

fino e mais fina ainda película, atrás uma

(ou duas) estante lotada de livros clássicos de uma

biblioteca. Arre! E ainda (ou pior, ou melhor,

melhor) não os coloco em prateleiras

esqueléticas de livrarias esquecidas (isto é, frequentadas

pelo povo ignaro de classe média alta e alta (média). E os

livros, acumulo-os (em parte no Centro Cultural Vital

Corrêa de Araújo, em Recife, e em minha biblioteca Borges

na Av. Visconde de Jequitinhonha, 2690 – Boa Viagem, onde

nasceram Cláudio Corrêa de Araújo Neto e Murilo Dantas

Gun Corrêa de Araújo – hoje residindo, em minha atual residência

na mesma avenida, defronte do Parque Dona Lindú).

Além dos cerca de 11 mil livros lidos, em

relendo, acrescento 2 a 3 mil livros meus

devidamente encaixotados da BAGAÇO (de

Arnaldo Afonso Ferreira e Inês Koury). Quem

sabe, para preencher os espaços vazios do

meu caixão? Ou serem vendidos como

peso (culto) de papeis? Ou dados a nada. E a

ninguém? Tudo. Junto. Cadê a vaidade

ou a rima. Não hão (há).

Não gasto horas de poesiar para me

promover (à pessoa física – e ainda bonita

vital). Não há personalíssimo em mim.

E pra quê? Chamar atenção. Isso sim:

falo deles nas minhas três revistas

literárias mensais PAPELJORNAL, SINGULAR e

ÚNICA e no site POESIABSOLUTA.COM.BR

 

Minha ambição na cena poética é zero.

Embora não vá morrer (facilmente).

 

E a música aguda porém leve e noturna

galgou tímpanos e pátios auriculares

dobrou martelos, bielas, abandonou estribos

e cavalgou impenitente pela espessura da noite

crivos obscuros abriu no pavilhão da ioça

em estridentes páginas aportou

como nau no areal.

 

Lírio barroco, pompa da palavra, jardim

de inverno da alma

texto corrosivo e atordoante de palavras

lassas de sílabas plúmbeas (ou devassas)

acantonadas em páginas de fúria.

 

Sonhos são descartáveis por natureza.

E definição. E inaproveitáveis. Não

se reciclam sonhos como lixo.

Mesmo os durões.

 

Quando o futuro vai começar?

Eis a pergunta que não cessa

(e não vai calar até ser ouvida ao menos)

de parte dos brasileiros, há mais de um ano.

 

Esqueleto de eco Narciso deixou

um resto na óssea água

de seu rosto.

 

Quando a água morrer

e pedra virar líquido em pó

o que será da veia?

 

Agora que dos homens restem parcas

e dolorosas palavras das espúrias

(ou malévolas) escavações do espírito bateadas

(pérolas sem viço e informes)

o que fazer para continuar a ser?

Murilo Gun

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