07
Qui, Jul

destaques
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À mãe noite, indevassável e inteira 
como um punho, uma rocha, como o céu
a que concede vidência e delírio
místico fogo aos olhos, visões à alma

secretas alucinações à palavra
à noite e sua poção viva e sigilosa
como a rosa in extremis, abstrata haste
noite venturosa e suprema que concede acesso
à turva verdade e a valentes fantasias.
E é dentro dela, no interior da vertigem negra 
que lisonjeio a imaginação da noite pagã
que encontro vivas as últimas profecias.
Ó noite numerosa e inexorável e rude
que aos dias precoces dizima e exalta 
noite onde o esplendor da treva desfila
noite que não é acidental como o dia
ou repetível como esplêndidas manhãs
de seu interior ardente chispa 
enervam a apagada vida diurna
que as chamas do horror incinera.
Resplandecente noite original que zela
e beija os sepulcros da verdade noturna
a florescerem como estrelas no túmulo do céu.
Noite material e superior, grandiosa e nua
noite irretratável e definitiva 
noite que unifica criador e criatura
palavra e poema, sal e seiva, rio e dor
noite cósmica fervente de ardor escuro que
recebe a nova religião da poesia.
Arquitetura extrema, devassidão aberta
êxtases crus, devaneios lassos ou vastos
tudo incrimina o verbo, tange a dor
as fraturas do mundo exibe ao amor.
A noite ensina os caminhos da morte
acende-os e desata, enleia-os de vida plena e plena queda
noite profunda e vivificadora, noite extrema
cujo seio amamenta a morte
cujo útero depõe a vida
e suas sendas mais escusas
e suas trilhas eloquentes e nuas.
Noite que pare a meditação, noite
que contempla o coração das coisas.

Ao amaro cálice da vida a noite
acrescenta visões de barro e uivos de pedra
noite que faz lábio apararem fel 
noite vinda da sombra original 
egressa da dor partida, dos olhos insanos
de anjos noturnos caídos em levante solar
noite que é fossa de cadáver e eito de vida
que move pedras, afia o medo, lápides clareia
noite que todos atravessamos
sem chegar a lugar nenhum, a não ao último confim
a esperança derrotada, o destino devoluto
a expiração da cruz a exalar o deslace.
Se sou mais de um, ouço a luz noturna
e me alço à ribeira do mistério indizível.

Noite vasta e abstrata, de data infinita 
lugar vazio onde não sussurra o tempo 
não existe a fé, só o sofrimento 
onde vida e morte se amam (homoamor)
sítio místico onde a morte prometida
e terrena não se desdobra, noite
que é caminho, claro trajeto
para onde a cega vida segue
noite cujo ombro carrega o poeta
para que ele suspenso e alto veja o invisível
contemple todo o dorso infinito do ser.
A mãe noite é una e alta, extrema e vasta
que cerceia o dia, impede a vida crua 
que dá acesso ao imo e à essência.


Noite que proclama a intensa e contínua 
liberdade da alma, transfusão da poesia.
É na aventura da noite, na busca da luz labiríntica
que se vive, que se deleita o ser. Estala 
o sol interior, chameja o cósmico dom
os músculos do tempo reluzem
as mandíbulas do mistério se apuram
os fragmentos uivam, as estrelas piram.
É a religião da noite que se aproxima
é o fervor desatado, o código liberto
as veias distendendo-se, o poema findo.
Como fogos bruscos apagando
o dia rutilante é a noite 
a que breves resplendores não resistem.

Instantes de esplendorosa claridade morrem.
Metafísicos espelhos não ecoam o espírito.
Visionário átimos crucificam o sítio.
O conhecer é infinito e a morte eterna.
Luminosa noite de raiz escura e poderosa
como o pez ou a doçura.
Em de teu seio extremo emirjo, noite pura.
Magna mater noite suma
cruzada de morte e ressurreições
de acasos e contradições
de purezas e aberrações, noite bendita
eu te maldigo incruenta mãe
eu te penetro virgem dissoluta, eu desejo 
o sangue, eu te abomino e amo.

Murilo Gun

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