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Qua, Jun

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Mas, afinal, poesia para quê?

Quando, de Mallarmé decorreram os 170 anos de nascimento do gênio, escrevi – e publiquei, três livros: Crepúsculo do pênis, Kant não estuprou a camareira e Verbo de barro – e logo depois, ATANOR (este o maior, a publicar).

Escrevi sob a égide de Stéphane, que lera por dois anos diariamente (2009/2010). Minha fixação, em 1982, fora Séferis e posteriormente CDA, Murilo Mendes, Jorge de Lima de Invenção de Orfeu. De 2010 em diante, lia todo santo dia Elitys, Quasímodo, S., Jorge Guillén, Montale, Lezama, Eliot e Pound (os sete samurais da poesia). Disse-o a uma poetazinha isso e ela esnobou, acho que por não saber quem eram todos. Isso sem falar no mago Borges, que lia desde 1979, e leio até hoje. Fui 3 vezes a Buenos aires só para comprar Borges, refazer seus passos solitários e cegos caminhos, conheci Kodama, M., na Fundação Borges, logo depois publiquei no Jornal do Commercio artigo provando não ser do portenho o poema best-seller Instantes.

Dentre meus 10.000 livros, 300 são de e sobre B.

            Posso dizer, no entanto, utilizei todo o interregno de esterilidade para ler e reler Stéphane      Mallarmé. Com ternidade eterna – e sempre etéreo.

            Com Mallarmé (e Rimbaud) aprendi que todo poema deve reinterpretar o universo, ir além do minúsculo e desprezível mundo e seus homúnculos (soberbos idiotas que somos). Esse é o único e total sentido da poesia.

            Também, que o lado de dentro do poema (o interior cósmico oculto) é supremo, superior, supera o rasteiro, de fora, o da aparência alienadora, versificatória, traçada de antemão para que poeta silabado não ultrapasse os limites e assim atinja o horizonte de eventos celestes que a poesia propicia.

            Todo poema é sobre irresoluta vida (do todo).

            É capaz a humana linguagem ir além? O que autentica a poesia é ir ao ilimite sempre.

            Aprendi igualmente com Stéphane: o casulo da poesia pura prefiro ao palco imundo do mundo. Ser inacessível (aos leitores tolos, torpes, idiotas e tais) é vital ao poeta, à poesia (e a leitor real absoluto).

            Toda a impotência que a criação poética deslumbra sitiava Mallarmé, de quem Valéry dissera ser o primeiro poeta de seu tempo (do de Paul e do de Stéphane).

            E o lance de dados que o acaso delire, e que a este abula, estava feito, lance de búzio-concha de palavra (da mão do homem para o gozo de Deus).

            Sob iluminação febril de uma noite soturna parisiense, SM teve a visão horrível de uma pura obra (e total), diz Manuel Bandeira.

            Sob luz gótica e réstia dolorosa, Mallarmé criou Igitur (o anjo terrível do verbo), tão estranho texto que ele jamais publicou e só o leu para raros amigos.

             É na página onde toda a metafísica do acaso é dada que Mallarmé alcança o livro (total, único, vero): que sua obra insuperável compõe. Eis a flor ausente de quaisquer buquês. E é até hoje, agora, aqui.

 

Murilo Gun

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