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Qua, Jun

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Vital Corrêa de Araújo

         Além de César Leal, poucos poetas de Pernambuco alcançaram renome, sua obra ultrapassando os estreitos limites da província ou as fronteiras do nosso valoroso Nordeste, terra de poetas. Dois chamo à colação: Alberto Cunha de Melo e Marcus Accioly.

            Não que seja insuficiente o âmbito nordestino para glorificar e atear repercussão, eco magnífico, chama de orgulho em qualquer poeta, ou aos que não voem aos céus ‘’sudestinos’’ (eixo Rio-São Paulo) sejam menos pássaros.

            Alberto Cunha de Melo, com nuvem própria e muita energia poética em seus textos, viris, técnicos, maduros, muito nos orgulha e bem nos representa (a literatura e a poesia pernambucanas) a nível Brasil e latino-americano.

            O apoio do presidente do Instituto Maximiano Campos – escritor Antônio Campos – e da editora Girafa, do paraibano José Meumanne Pinto, propiciou visibilidade e imprimiu em definitivo o selo de universalidade à obra albertiana.

            Objeto de várias antologias de cunho nacional, com sua poesia lida e analisada em vário âmbito e em largo espectro, agora – e para sempre – ele figura como um dos maiores poetas brasileiros do século XX.

Pode-se classificar a produção poética de ACM (não confundir com o antípoda a todos os títulos, malvadeza), como poesia militante, como a dos irmãos lusos José Gomes Ferreira e Manuel Alegria, e afirmar que a vida e a obra de Alberto foram dedicadas à alta poesia ( e ao jornalismo cultural militante) colocada a serviço da liberdade e da justiça. O que Marx dizia – com base em Terêncio – digo de Alberto da Cunha Melo: nada do que era humano lhe foi estranho.

Embora atravessado de êxtase pela palavra, assoberbado dos demons ou do visionário que percorre o espírito do poeta, e embriagado da paixão do verbo, ele estava sempre objetivo e sereno, com os pés na terra (e o olhar no sonho), alicerçado em sua firme e coerente e incorruptível concepção do mundo, da vida, da natureza, da sociedade (weltansshauung), que o mantinha firmemente ancorado na vida real nunca enganado pela aparência, subjugado pelo casal 20:usura e prazer, ou seja, como sociologicamente interpretava, no rés, no meio (in medias res), no centro de uma realidade política e humana duras, implacáveis, mas que enfrentava com rigor e alegria, de quem sabe e sente a profundeza de sua humanidade e responsabilidade do escritor perante nossos difíceis tempos, que os daninhos bushes teimaram em esterilizar. É o preço da responsabilidade poética. O véu do lirismo – espesso, intemporal, sedutor, etéreo – não escondia ACM a áspera realidade de cada dia e a dor humana, que no Brasil e Latina América é mais profunda e viva.

            Desde Círculo Cósmico e Oração pelo Poema passando por Soma dos Sumos, até o monumento (vértice e vertigem) que é Cão de Olhos Amarelos ( prêmio 2007 da Academia Brasileira d e Letras), a trajetória escrita de ACM, a parábola poética (cujo acme é Yacala) do querido amigo e mestre, a envergadura de sua palavra viva catártica operam em nós como uma usina que fabricasse horizontes e alicerces, produzisse voos e utopias, propiciando a seus leitores e seguidores caminhos, rumos, desdobrando ímpetos e labaredas, arrancando máscaras e vendas, instituindo olhos, estabelecendo visões, assim fazendo o futuro nos espreitar com piedade e candura. E menos desespero.

            Alberto da Cunha Melo forjou ao longo de sua vida plena (que Cláudia Cordeiro aplaina) de verdade e luta, ao longo do caminho difícil porém venturoso, uma poética viril e primorosa, atenta a minúcias e ressonância cósmica, como soe ser a grande poesia do nosso tempo.

            ACM foi um demiurgo que siderurgiu a palavra, imprimindo ao verbo alta voltagem lírica, e da tensão total obtida resultou poemas que irão marcar em definitivo a literatura pernambucana e serão paradigmas para novas gerações de poetas.

Basta ler Alberto da Cunha Melo para que o arsenal, o paiol, o silo da palavra abram-se e iluminem com luz libertadora o veio da melhor poesia. Para que a força da palavra lírica e o verbo absoluto ocupem a alma do leitor. E aplainem a visão pedregosa com lavores de humanidade.

            Bata que alguém, de qualquer idade, mas com pré-vocação da poesia, aceite a provocação de ACM, e o tempo fará o resto.

 

                                                                                  (Após o enterro do poeta

                                                                                   Texto escrito numa mesa

                                                                                   De uísque e saudade).

Murilo Gun

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