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Qui, Jul

destaques
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Ao barqueiro Caronte e alfandegário banqueiro de óbolos sublinguais

moeda sombria que ele extraía

da boca não mais úmida dos mortos

como dente, passaporte, pagamento

da viagem para a outra terrível margem.

 

Quando passe o trânsito

e dure a sombra de Caronte

e todas as pausas se amontoem

sobre os rins dos hexâmetros

 

quando a treva dos olhos tornar-se

crua claridade

e sobre os torsos do silêncio abandonados

nas cruzes sem trégua dos caminhos

o grito derramar-se

 

que a eternidade apressada corra

das veias do vasto (veio infinito, duro páramo)

para longe das horas.

 

Quando seque o esquecimento suas cegas fontes

e apodere-se de lamúrias o espírito

o rio das sombras nos lave o lodo escuro

 

e o rumo incerto escoe

pelo ralo das certezas dos caminhos

enquanto vingue o ermo habitado da dor.

 

Quando a palavra ruminar o texto (alma)

e o grito da gramática acordar a mão

sílabas começaram a sonhar com o poema.

 

Quando o trânsito cesse a poesia chegue

e as margens tremerem sob o peso das sombras

a barca de Caronte será a salvação.

 

Murilo Gun

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