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Qua, Jun

destaques
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A coluna vertebral de abril cruelmente afetada pela horda de fractais insones debruçados como cornucópia sobre o calendário nu num bar defronte entre sonolentos poliedros três geometrias bêbadas conversavam com uma velha hipotenusa junto a decrépito ângulo agudo e súplices violetas arremessadas de vasos sonâmbulos por vândalos madrigais ressentidos, à sombra de juízos os impunes clarões e injustos decretos embriagando-se sob impulso de capiteis intensos o balaústre de caules de junco e tigres elegantes a perambular por jaulas de arcos atarracados e tijolos altos.

            Olhei então para a alma que parecia um túmulo sem lápide, mausoléu arruinado, músculo recluso de éter da morte, mais além cripta de silêncio pesado amordaçada por colunas angelicais e coros que não retumbam mais. Leveza duradoura do imortal emolumento que orna cubos decapitados por séculos de afiada usura de bíblias de pedra rolando sobre séculos incruentos e afáveis expostos à afabilidade inefável própria das nobrezas intranquilas, o fêmur dos catecismos, as cismas do civismo, os feltros do espírito, as furnas do sentido e nada, nada mais tenro que um campanário ao luar e solitário próximo a David desbotado numa praça de Florença, nada mais ávido que os duvidosos orvalhos do tímpano (que ouço) e o som expansivo, os dobres alegres e melancólicos do ângelus ao crepúsculo... e ao longe posturas municipais indeléveis. Da saliência esdrúxula dos anjos góticos, vejo sábados e luas de sangue e sarcófagos em silêncio, além das nítidas pregas das túnicas dos últimos relâmpagos e a dor dos pequenos ornamentos esmagados pela podridão inclemente das arcadas plúmbeas, os vícios do século reunidos em torno curvo dos drapeamentos respeitáveis ao abrigo de princesas delapidadas como estátuas de ratos.

            Do combate às trevas, jornadas infantes e nada probas assomei a ogivas plenas de claridade, a místicos edis e sufrágios podres imerso nos ardis da noite aprofundada, vi-me sob negro lampejo a duvidar da certeza furiosa dos espíritos em riste perpétuo, em hordas sem carne processadas por anjos de betume e graça (me seduziram suas túnicas fúteis e pregas desdobradas), e assim me saí de mim abraçado a corbelhas perfeitas de flores de retórica murcha e rosas persas. Soube então ser vital depredar iconoclastas, a cinzas seus rostos reduzi-los, almas a pó além de contemplar virgens bordadas com hímens de cetim (a falos de linho rendado oferecidas) enquanto procissões de lágrimas não evitaram que a poesia perdesse o abraço da realidade, pois poetas parcos não aceitam a perda do ritmado contato com a realidade exata aparente, precisa, inalterável como batata frita. Porque a presteza do poema nina doçura e leveza.

            Da abside vitrais à sombra dos coros treinam o suicídio das cores abissais e se renovam ao confronto com hostil ignorância do mundo. Luzes fremem ante mulheres ondulantes de véus espessos e ancas furiosas, de lábios selvagens e seios elevados aos céus dos sais, eretos como falos em ato. Ante lúcidos gestos de candelabros me ajoelho a olhar a doçura elegante dos tímpanos esculpidos a brasas e versículos a barlavento do paraíso imersos nos sais lentos do século intraduzível como uma cariátide.

            Belas e rígidas pregas de brisa e pedra da ode excitada e benevolente de antífonas espiraladas a céu de pedaços de vitrais acobertando canto mergulhado em urnas de primavera plenas de íntimas volúpias, pelos clérigos prístinos ardentemente de joelhos, visão  composta ante gótica doçura do cortejo das catedrais, cônegos de falo triste e punho em riste a prece pendurada dos lábios à luz do cinzel excitada sombra se ergue em conflito com o detalhe escuro atento ao silêncio das superfícies que se aprofundam no poema escuro e profundo e esperam que o ouro do canto encante o espírito e o pecado busque refúgio no inferno (de onde não deveria ter saído e subido ao horto sublime do éden).        

Murilo Gun

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