29
Qua, Jun

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

VITAL CORRÊA DE ARAÚJO (VCA)

             Em termos energéticos não fisiologicamente considerado, porém na possível conotação filosófica da energia), pode-se dizer que o leitor da poesia impregna-se de intenso esforço na leitura crítica do poema com o objetivo de extrair (e a ele transmitir) da obra poética toda a energia filológica ou lírica,

pelo poeta introduzida ao compor. Como a energia apreendida, recuperada – diria o crítico dialético Galvano della Volpe – jamais igualará àquela despendida, nesse ‘’gap’’ ou desnível, reside o fator (ou a magia) do incomunicado. É aquela poção de ‘’não ser o que VCA  quis dizer, se o quis? - explico.

            Daí Dom Benedetto Croce dizer que a poesia é inefável.

            Croce – antigamente, e o anotei – dizia que a técnica, a regra, o regulamento versificatório, a norma convencionada – e há tanto utilizada, que se reveste de tradição negativa – em suma, toda a parafernália do procedimento externo (rima rica, métrica, proba, etc.) não está envolvida organicamente na expressão artística (literária poética). É apenas técnica, meio datado, epocal, transitório – e não fim ou condição sine qua non do poema. Se faz vislumbrar algum limiar à poesia, se se reveste de uma beleza organizada, se obtém alguma pose estética, é algo variável no tempo ou circunstancial.

            As convenções, rígidas ou não, versificatórias – a quem milhões de ditos ou (mau)ditos poetas obedecem servil e estruturalmente, elas dissolvem, destroem, reduzem a pó canino toda a invenção poética. São meros interruptores da imaginação.

            Não é um conflito entre historicidade e funcionalidade, porém prélio entre norma estabelecida e liberdade. Pois o imaginário é anômico. Isto é, inormatizável, por definição. As violências às normas ‘’externas’’ que o poeta absoluto promove não podem nem devem ser moderadas ou suspensas.

            Poesia é fato e verdade ao mesmo tempo. V. g.:

            ‘’Escórias já estão queimadas, no mínimo, são doces rescaldos’’. ‘’Assisti ao cortejo triste das substâncias (etéreas ou não). Substantivos abstratos (humilhados por leitores maus), em desfile na página garbosa’’.

            Aos ácidos laboratórios, às turvas oficinas artesanais do poema relativo não resistem poemas ou verbos líquidos e inefáveis, como o são na poesia absoluta. Irresistir a esta é vital.

            Dum livro sobre grandes sociólogos, focalizando tema literário, de  que não retive em nota o nome-título, registrei:

            ‘’Numa célebre página de Zibaldone, Leopardi versa: ‘’Primavera per me pur non è mai’’. Mais ou menos. Para mim, nunca há primavera. É uma expressão inefável - estranha, incógnita. E a tradução semântica: eu sempre fui infeliz ou algo parecido, é irrelevante – e prejudicial ao poema, traidora, antiestética etc.

            Na intraduzibilidade do verso à leitura, na recepção inconfundível da expressão estética, profunda, inexplicável ou no seu alcance não semântico mas textual em si – sem outras informações, a poesia está sempre. Se à língua normal, a que usamos – e muito, para comunicação, isso cause estranheza, desborde, absurde... azar dela – que se dane!

            Não se pode suspender ou derrotar a imaginação humana ou a utopia lírica, para ser submisso a convenções e códigos transitórios.

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
 

REVISTAS E JORNAIS