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Qui, Jul

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                Poesia é controvérsia, não é retórica. É arregimentação de palavra, invencíveis e esfingéticos batalhões de verbo na guerra da página. Não se admita jamais um (só) sentido único no poema.

Poema unívoco é contrassenso, máscara de prosa. A poesia é uma atividade verbal intensa, é a expressão em máximo aclive, o verbo desmesurado. Não mais são aparadores ou alicerces frágeis a mera sensação, a intuição coletiva, o sentimento individual. (A solitária intuição opera, talvez).

            É atividade de invenção a poesia. É a criatividade humana exposta sem fraturas. Ela estabelece, constitui o lugar do homem na linguagem. E é o ser (sólido ou não) os lugares poéticos mais refinados e célicos (topoi ou loci de que se valem poetas absolutos).

De que se valeu os poetas absolutos hoje.

            A ruptura com a concepção vulgar do mundo (ou tradicional, no caso do Brasil) se dá pela ação navalhar (ou martelística) da poesia absoluta.

            Por via única do poema absoluto se permite acesso à única condição (sine qua non) de romper a rígida e duradoura vigência (quase infinitamente eterna) da concepção cartesiana da razão, que se mundializou – e se mundinificou – com o advento (evitável) do capitalismo, hoje sistema econômico único e dínamo irrecusável de crises cósmicas.

            A busca da evidência (poetar claro) no poema é detetivesca, infantil, vergonhosa. O que o poema quer dizer é ridículo. O verossímil no poema tradicional é pouco. Exige-se o fato, o intestino aberto, o dito bem dito. É mal.

            Esquece-se que a poesia é ficção, mentira, engodo (metáfora), artifício lírico etc. A evidência é do campo da razão delegada como marca definitiva do humano. Quando é vida da aparência. Pois o real é irracional, sob pena de ser só máscara.

            No poema relativo, o espírito adere superficialmente, cola e se solta. É a razão instrumental não o poeta-humano que data o poema. E este é para emocionar, causar pranto, sensações plenas ou vazias, explicações à alma. Nada há a conhecer. Nada a ser.

            Poema feito para palmas, aclamação, recital, auditório é balela retórica fraca. Inutilidade própria. Querela familiar, questão do coração, pura emoção, prazer individual são os argumentos da poesia vigentes há 500 anos.

            No poema é-de-se inventar a expressão. Nova. Desconhecida. Incompreendida.

            Qualquer ligação lógica é prosaica. Todo poema relativo é silogístico. Pura merda.

            Se é subjetividade incomunicável, vá lá. Valido. Se é inválido dá no mesmo.

            É o poema que dê sentido à plena liberdade humana – sem óbices versificatórios imbecis - que se busca. Algo mesmo com possibilidade de escolha irracional. A irrazão tem vasto domínio do homem. É o campo ídico.

            A imaginação inventiva, heurística, viva, soberana perambula no poema, que não se obriga a convencer leitor emocionável facilmente. O invento verbal, a inovação da expressão e o sintagma pós-moderna se opõem ao conservadorismo medieval da poesia. É o peso da inércia poética que nos admoesta, hoje, e nos faz pensar tortamente que a regra que valeu em algum passado valerá em todo (o) futuro. Daí, o conceito de ultrafuturo, que nós (Admmauro Gommes, Marcondes Calazans, Ricardo Guerra, João Constantino, Rogério Generoso e outros) desenvolvemos.

            A preponderância do fator inercial é o maior obstáculo à criatividade. E o empecilho-mor, o óbice absoluto à poesia absoluta. São sequelas insofismáveis.

            Como o poema absoluto não vive da adesão de auditório ou não intende ser persuasivo, também independe de muletas racionais, explicações banais, celeridade de compreensão etc.

            Adesão de leitor – no caso de VCA – é o de menor valor. A técnica poética marcada de fornecer razões ao amigo leitor naufraga.

            O poema absolutamente não é inspirado, não busca facilitar leitor, não é de leitura fácil, pacífica e bel entendimento, não exprime vivências do autor, não expressa nenhum todo ou pleno, não persegue adesão ou conforto de leitor (muito pelo contrário, nada de pentelho).

            Não se dirige a público nenhum, é algo íntimo, da consideração ou intimidade objetiva do poeta. Pois o íntimo não se publica. Daí, eu (VCA) não lançar livros. Nem autografar.

            A perspectiva do conteúdo não motiva (ou emotiva) o autor do poema.

            Que não se busque nas involuntárias ou não intenções do poeta-autor elementos, psicologias, indícios, evidências que ajudem a uma teimosia exegética de leitor coitado! Não há tendencionalidade nenhuma do poeta, no poema absoluto, para leitor relativo. Nem sentido dado ao texto ou contexto. Nada.

            O poema absoluto como a língua é imotivado. Enfim, poema absoluto é um saco.          

 

 

Murilo Gun

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