07
Qui, Jul

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Cláudio Véras

         Em Vital Corrêa de Araújo (VCA), o espantoso e o inusitado se amam... e dão-se as mãos a absurdas metáforas, construtores do verbo primordial.

            Seus poemas não se adequam a nenhum tempo ou lugar (mas, sim, ao não-lugar conforme Sébastien Joachin, o mestre). Não se maculam de meras questões de emoção ou sentimento (à flor da pele, que a náusea prefere). São trazidos à tona do humano. Desincorporados à normalidade, que é, em si, monstruosa, em seu ritmo mecânico (parnasiano) e deliquescente, em seu estertor adiado.

Eis uma poética realmente nova, capaz de transportar leitor além de si mesmo, e mais além ainda do mero arredor do eu poeta. Há nela um estilo vital verdadeiro, há nela o valor da palavra, o barro do verbo. Estilo que decorre de recôndita sutileza, de sublime agudeza, engenho ímpar que move o demiurgo que aciona a moenda de sílabas estendida no papel.

Conforme diagnosticou o Prof. Sébastien Joachim muito bem, no livro A poética de VCA, seu objetivo é derrubar o significado.

É um poema que causa espasmo na alma, que gera no leitor sideração, instala confusão, estupor, continua Joachim.

VCA dá realidade maior à aparência das coisas, quando se transporta para o real verdadeiro (de Novalis), abstraindo-as para melhor vê-las (às palavras-no-poema), por dentro e por inteiro (a realidade real).

Ao introduzir o aleatório como alicerce, edifício e consistência do poema, está-se remordenizando-o, e tornando a poesia o elemento sobrehumano, superior mais essencialmente humano, a estética como selo e marca o símbolo do verdadeiro e autenticamente humano.

O elemento ou fator aleatório da composição lírica é vital à poesia absoluta.

A interrogação sobre o futuro da poesia começa a ter resposta.

A indeterminação e o inacabamento do poema (não mais – nunca – jogo de salão, sorriso da sociedade, ocupação de ócio rural e urbano, algo supérfluo, inútil, bonito, romântico) passam a fundamento e veículo de expressão poética vital.

Contrário a todos os determinismos mecânicos da sociedade e da natureza é o poema absoluto.

O aleatório poético como a unidade dialética da necessidade e do acaso. O dado acaso. O acaso exprimindo-se numa necessidade e esta expressando o acaso da palavra, tudo numa perspectiva ou dimensão estética, exclusivamente.

O poema como polo, rumo, cume do acaso. Em Prolegômenos à filosofia (do atual ao porvir), Lefebvre expõe a raiz da dialética hegeliana. “O contingente é necessário e a própria necessidade se determina como contingência, enquanto por outro lado esta é antes necessidade absoluta”.

A propósito do fator (vital) aleatoriedade na composição poética, (lírica absoluta), criei (ou compusemos eu e o smartphone Gálaxie 4) uma série (serial) de 13 poemas caóticos, em que o azar verbal foi o fundamento. A base são os poemas de Jorge de Lima (ao lado de Pessoa e José Gomes Ferreira), este um dos maiores e um dos melhores poetas lusos do século XX.

Sob o título de dado acaso (caos versus caos vital), levo à estampa (digital ou não) estes poemas, em que se aprofunda a noção estatística de improbabilidade, em que são postas em prova as interrelações do atual (potencial) e possível (impossível real). Na verdade, se trata de cálculo de improbabilidade radical de natureza verbal, isto é, a palavra dada, ao acaso do celular gerada, a partir da voz do poeta.

Ao conjunto de poemas tais, nomino-o da qualidade de acaso digital provocado. Trata-se de um modo de liberdade cibernética.

Segundo essa improvável teoria, é o imprevisto e o imprevisível como tais que trazem informação nova – e surpreendente. Na variedade da surpresa (incessante, pois) reside a diversidade do poema caótico e atual, sobre o qual se edifica o real, se instala a novidade inovada.

Parto do suposto de que a repetição (copiação) e mensagem – como fator primordial do poema relativo – ou repertório e mimese, como indissociáveis à estrutura da mensagem poética e à geração da imprescindível inteligibilidade – é algo superado díssimo. Desatual por excelência. Algo retrógrado, reacionário, conservador, anacrônico por inteiro.

A repetição, a mecânica rímica e métrica, o reúso das formas vencidas, a restauração de uma poética ultrapassada (que o ultrafuturo abomina) criam só trivialidades banais.

Sem esses fatores de inovação e descoerência, sem essas qualidades de descontinuidade real, sem esse caos quântico (e alquímico) verbal, o conhecimento e a verdade poéticos continuariam inutilmente numa esteira de inércia e redundância. E o que mais importa. A inovação poética e a novidade do absoluto verbal se quantificam quando as combinações sígnicas não se repitam jamais.

O desafio do leitor absoluto (cocriador do poema) é dar sentido e significância real a uma sequência integralmente imprevisível (e mais que improvável) – e em especial, desordenada, vitalmente caótica de signos ou palavras espalhadas no espelho do papel. Em suma, buscar e encontrar zonas, regiões, polos, campos de informação estética (não política) nas dimensões dos possíveis ou não.  

Entre ordem da desordem e desordem da ordem (e em sua identidade), o poema reside.

O ponto de incontato é: não há evolução sem novidade. Nem sem complexidade.

Imprever o previsível é só o começo. A qualidade (não a quantidade) da diversidade e surpreendentidade são essenciais ao poema, ao menos, desde Holderlin. Trata-se do cálculo do imprevisto. Qualquer determinação literal é ofensiva ao poema. Pois negaria o aleatório, aboliria o azar. E contrariaria o acaso dado do poema. O desconcerto do futuro equivale à não reprodução do presente. E o caminho do porvir é o desate de qualquer banalidade. É o descaminho do estabelecido. A superação do conhecimento industrial, o fim da cultura mecânica. A demissão do pensamento autoritário. E da prática capitalista. O extermínio da práxis industrial, meramente produtiva.

Henri Lefebvre indaga: A introdução maciça do aleatório em todos os domínios da consciência e da ação seria o caráter essencial da modernidade? E ajunta: pode-se sustentar esta tese.

Veja-se que o aleatório equivale ao caótico (em Perse) e ao azar em Mallarmé.

Porém, o que ilumina o aleatório que não siga a poesia, pergunto? A luz vem do fim da consciência impotente e resignada (que a indústria – em especial, a indústria religiosa – impõem com força e fé da força).

O novo tem a característica de sempre surpreender, porque qualquer inovação é inesperada. Senão, não seria.

A racionalidade (desde Taylor) é peça essencial da dominação (e fator de eficiência e produtividade máxima). (Por exemplo, o poema racionalizado ao extremo).  A redução do irracional na sociedade é mau sinal.

A remodernidade poética reside na redução da compreensão (mensagem) e recrudescimento da extensão (aleatória).

A extensão do aleatório, em prejuízo da compreensão racional, reduz as chances do erro de interpretação e significa a derrota da sintaxe opressiva. Inúteis precauções gramaticais e desaudácias são deletadas.

            A compreensão do aleatório resulta na desextensão do estabelecido pela ordem ditatorial do poema (marcial).

O triunfo na poética da descontinuidade e da indeterminação, graças ao advento firme do aleatório na poética, gera o reconceito de processo poético, destituído de quaisquer determinismos mecânicos e pleno de contradições e acasos “processuais” possíveis ou não, geralmente improváveis.

O processo cumulativo (ou enumeração caótica) é vital à nova poesia. Reflete o caos ou dado acaso no poema absoluto (criado ou imposto pelas saturações a que foi submetida a poesia brasileiro, desde a Geração 45.

As relações de produção poéticas mudaram, foram transformadas – e não avisaram aos “poetas”. Que ficaram para trás. E refreiam (conscientemente ou não) a invenção absoluta, em favor de tecnicismos obsoletos. O investimento em rima, a poesia capitalista, o cálculo métrico vital etc são improducentes. A coesão e estrutura externa da poesia velha vigem como mera velharia, em forma de sobrevivência anacrônica.

A estratégia teórica é que todo possível da palavra se encarna no poema, todo o potencial do verbo se realiza no poema atual (neoposmoderno).

O processo cumulativo (a quantidade se transformando em qualidade, a partir do ultrapassamento de certo limite) segue uma lei de crescimento exponencial, desde que os fatores de saturação alcancem o máximo nível e os fatores de superação modifiquem a curva poética e desencadeie o salto exponencial.

Abaixo toda semântica mecânica, toda a sintaxe das máquinas e engrenagens dominantes e redutores da gramática e do progresso da palavra. Que todo o aparato viciado da poética velha quede-se.

E viva o gozo semântico novo.

Abaixo o fetichismo da criação lavorada, mecanizada, normalizada, em estrita e estreita obediência a regras ditas versificativas. Criação que se degrada num culto ao “fazer poético” regrado, artesanalizado, calculado. E os truques da rima e as astutas escanções. É a ideologia banal do fazer poético e admiração da habilidade técnica na correta aplicação de regras e normas versificatórias, compactadas em velhos manuais.

A ideia de criação fetichizada implica claridade, exposição do fêmur hermenêutico, mensagem nada obscura, lição de amor ou de moral bem clara, emoções à flor da pele e às claras. Fabricação poética, conforme manual de instruções para montagem perfeita do poema.

E, ao final, é só uma pequena técnica eternizada.

A objetividade, a aplicação mecânica do procedimento técnico negam a subjetividade, reduzem a mera fração a força do imaginário.

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
 

REVISTAS E JORNAIS