07
Qui, Jul

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                                                                             Deus criou a mulher, o homem

                                                                             foi inconsequência.             VCA

            Áspera catedral cujos alicerces, além de orações votivas e eclesiásticas rótulas, são as vozes de pedra, sopros fervorosos do mais alto orvalho, cochichos de anjos dos nichos, ergástulos de algodão ou lampejos das últimas gargantas despejando sal salvífico da saliva. Sua solidez profunda, seus apanágios de grinaldas de inefáveis pássaros em voo gótico uivam nos olhos fiéis que duelam nas liças das naves do âmbito sacro pelejam nos campos de silêncio amplo e paredes seculares se entrecruzam nos tímpanos navajos de que redentores impropérios se alevantam como aves de preces perorações célicas de Deus, acantonada em seu tugúrio de fogo sobre lençóis de hóstias que buscam bocas rebeladas, lábios oferecidos, dálias de palavras úmidas como volúpia de papoula cal que arredonda a românica arte catedralesca, basílicas de carne etérea e arremata o jovem rosto gótico de cútis flamejando da face do abismo despencando como aves inefáveis aninhadas nas cornijas selvagens.

            Juvenil perfil de anjo paira sobre paz conturbada do mundo adulto, inefável ave de voo adolescente abre cortejo lírico epidêmico à sombra santa da igreja turbulenta luz gótica guia a procissão indelével às burlas sórdidas dos dias, às grandes dores do mundo, heróis infiéis e pecúlios laterais e espólios nus espoliam nuances metálicas, expressões de usura, rochedos de náuseas, nojos votivos, salivas ásperas dos púlpitos falanges dos ocos santos, pútridas carnes da alma catedrais ajoelhadas em rendas lascivas ou sêmens falsos nada do que não seja humano interessa ou vale.

Relâmpagos que nasçam de orações derramando-se da boca dos oráculos (de suas apodíticas gargantas) trovões ou rebelados despejos de vozes proféticas (dos carvalhos imemoriais de Dodona) venham ao esôfago dos homens trazer iluminação à fantasia.

            Por que as catedrais se mudaram dos olhos (a última catedral foi Dom Hélder Câmara, sua derradeira pedra Pernambuco aplicou e fez retumbar seu nome nos célicos salões da eternidade brasileira) e as faces viris ou austeras hoje viram esgotos?

            Nada mais é bênção, tudo banalidade de banana.

            Nada tão caluniado quanto pênis ou inútil como a escória do hímen... nada de tanto valor quanto (da moçoila talvez sem calcinha e de  cabeça enevoada) o nu, tranquilo e ereto seio – que a hora fez desabar, minha relíquia, meu cacife minha prenda estima, óssea e macia maçã.

Criptas espessas de góticas teias e crisálidas de pedra os pentelhos da morena, selva de formas essenciais, renda metálica e tenra, orla de austera simplicidade (que a boca rememora – e entala dentes) à borda do róseo e aromoso abismo agarra-se em torno da janela do gozo decorando árabe e voluptuoso oásis de carne movediça, imperiosa, capaz de engolir as chamas das virilidades inúteis.

            Brecha gótica, inflamada, flamejante, de aromas insolentes, inefáveis, vivos, ornamentada, orquídea carnívora que devora os homens e sua perfídia. Pórtico divino e terreno por onde a humanidade desfila.

            Obra bárbara de Deus (felino, sensual, suave, animal) de arcos superpostos de carnes vermelhas e suaves como Deus. Polpa sublime, pomo de enganos. Antros merovíngios, urbanos, selvagens, inchados. Geometria incansável, bacalhau de lua, sombra faminta que a luz dos lençóis apalpa, germe da vida, futuro feto do porvir (dela irrompe como vulcão vivo... feroz, feminino).

            Úmida cornucópia, bolsa de gozo, caixa onde o prazer mora, mala do ventre, pacote de engodo molhado, cone ou urna, poliedro ou múmia (porque de bordas muchas) que bebeu das fontes primevas da vida e embriagou toda a natureza, fez delirar reis e leis e se conserva como oratório, comarca, tugúrio, graça, altar a que se ajoelham homens... e homens se multiplicam.

            Virtude magnífica e úmida que não é escultura nem é arquitetura... é sombra profunda, luz de êxtase, sítio grave onde se arquiteta o futuro humano e se esculpe a humanidade noite a noite, leito a leito, a custo de,  de volúpia em volúpia, o ser.

           

 

Murilo Gun

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