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Qua, Jun

destaques
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 Como aprisionar círculo, encadeiar cores

e vislumbres, encarcerar esferas e lobos

além de poliedros em cubos exatos? Como?

Haveria de extinguir ângulos dispersos ou agudos

e persistir entre geometrias gêmeas.

 

Só o lamento dos últimos dedos

e a nostalgias do corpo escuro.

 

Flor de pétalas físseis

rosa poliédrica de tez atômica

aurora de urânio e lírio coagulado

corolas esmagadas, néctar estuprado

a safra bélica, a febre sôfrega

o agonizar de madressilvas

dores circunscritas ao centro da náusea.

 

A escrutinar o ser os desejos da morte

sedosos mas impacientes

percutindo seus anátemas

circulando vísceras mudas sobre sangues

o barítono das sombras, a partitura das trevas

o aluvião do vivo deformando-se

como centelha ensanguentada

pela luz viciada das veias.

 

Absurdo mar de ondas pétreas

e cordilheiras náuticas

nele submerso como pérola ruda

o útero da lua e diademas nus gravitando o vácuo.

E portos sepultados em abismos d’água.

Severos estribilhos de corais arruinando-se

a flutuar feito arraias ígneas

arremessados contra recifes árduos.

 

Espadas descapadas, portas estéreis

engrenagens em forma de gargantas

labirintos lábeis, caos fracionado fecundando-se

entre fractais do instante

e criaturas esterilizáveis

o tempo do outro carcomendo-se

a realidade naufragada como bobinas

e os espelhos despejando vozes

e reflexos de urros interiores

o cavalo da eternidade ao lado

de ônibus galopando às claras

ante passageiros solapados pela história

aniquilados pelo curso feroz do tempo

e feéricas vísceras estancadas

pelos momentos simultâneos

apenas entrevistos do poema.

 

Puro chumbo o céu, a chuva viva

abeirando corcel de nimbos

o peso da luz desviando a sombra

que poente antepõe ao sol

a lucidez do tempo estampada

no estoque que a hora desgarra

as veleidades do todo perturbadas

os limites impedidos de ser

e os horizontes com o rigor espezinhado

as fronteiras derrubadas como muros

apodrecidos e instantâneos

e troias berlinenses e absurdas

restaurando epopeias.

 

Ontologia não do ser, mas ser

onto e depois.

Genitivamente úmido o dó

ante o doloroso que a vida é.

 

O ponto da extrema ruptura resoluto

a palavra desfiando

obstáculos puníveis estabelecidos

armadilhas do tempo bem estáveis

circunstâncias e idílios já à vista

ante a interpretação do absoluto

através de salmodias admiráveis

que escapem do absoluto da poesia.

 

 Caos concentrados no limbo

rastro ostensivo de anjos avultam

céus movediços como ditirambos

atravessados de auroras e vísceras

arredondando-se como ratazanas

nos berços amagotados de filhotes

inocentes e gerundiais.

 

Marés estancadas

arrecifes aveludando-se

repousos agitados como diques

cais assolados de solidão

o sal da vida espoliado

o esplendor infuso ainda

a ressonância mecânica alastrando-se

e vozes estranguladas na garganta

episódios estéreis interrompidos

a amnésia triunfando

os ablativos triunfando

os ablativos desnudados

e gerúndios adormecidos

nas laudas do pequeno apocalipse

que escrevo narrando a mim

estampando-se das páginas polutas

e almas  algemadas o ser que reste.

 

O fluir da sombra cediça

o amortecedor do rumor infrutífero

o fêmur em pane, a vida exangue

tudo recusando o início

o fim adiado como incêndio

do paiol ressurgindo em céleres

e imortais labaredas ingentes

escamoteados sinais assomando

à sanha da imprevista cena

origem do estábulo e da penúria.

Sagas que cederam

caminhos inescruzados

cruzes compulsivas

de calvários velozes

e estigmas profundos

como chagas de rosas atômicas

 

O eterno trânsito

impassível como amêndoas roubadas

lumes extintos desde o início

lamas coagulando almas

e pétalas sacrificadas em vão

no vau da manhã florescendo em jardim dúbio.

O arvoredo dissoluto dissolvendo

a verdade voraginosa rebentada

do caule infrutífero da vida

e o tempo dinamitado pela hora ázima.

 

A luz inviolada e venenosa

como víbora escura astuta

as tristes fontes áridas

nascentes envenenadas  

por águas e dízimos conspurcados

por agruras e dores dizimadas

o ser terrestre (os deveres da alvorada obscuros)

seios pedregosos de alimárias

sopros montanhosos e arrebatados

rebentados por óleos pétreos

de anjos plúmbeos e extremos.

 

Águas e rezas contaminadas

de purezas extremadas

e áscuas virginais

derramadas de altares inabordáveis

por sacerdotes de sais lacrimais

egressos dos últimos ralos.

A liturgia dos esgotos inflamada

o sacros sumos do vômito redimidos.

 

Responsos e responsos esquecidos

em velhos e inabitáveis sonetos

ou músicas silenciadas a propósito.

 

Sintaxes emasculadas, hiatos suínos

ditames raivosos

vozes do guto abominadas

como sílabas amordaçadas

em textos proibido.

Gramáticas das últimas rosas

flores dolicocéfalas

e lírios abortados

como pássaros ou sinos adúlteros.

Febres, ovelhas, sustenidos

bemóis de abismo

voragem do crucifixo

libertada do último limbo

ardores mutilados

adjetivos insurrectos

ressurgindo do mais espúrio

substantivo.

 

Todo o delírio dê à poesia

todo delírio é do poeta.

Toda ventura seja vendida

qualquer rima recomprada

sem risco do evicção.

Todo engano revivido

qualquer burla revisada.

A libido recomenda-se

à palavra do poema

para que reconheça logo

o gozo verbal.

Crer na criação verbal

é ser deus de novo.

Descrer da morte

é o verbo vital.

Que amorteça

a dor de não ser

víscera e palavra

verbo e abismo

até a ressurreição da dor.

Murilo Gun

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