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Sáb, Jul

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Esse  pressuposto  frívolo  e  falho  (ou  fressuposto)  de  que o poema necessariamente –e  por  definição  ou  natureza –tenha  um  sentido  prévio,  dado  e  depois  mecanicamente construído  e  adornado  por  palavras, 

quantificável,  anterior,  apodítico destino  da  jóia palavrosa,  poesia,  sob  pena  do poema não ter sentido, se este não for óbvio e ulular, como escrínio  verbalizado  incólume.  E  dai  vem  o  sem-sentido  da  poesia,  que está-sempre-além-e-aquém de  todos  os  falíveis  sentidos,  de  que  se  impregnem  as  coisas  comuns  (e  os homens   idem,   como   Joyce   previu),   cotidianas,   transitórias,   etc.   Poesia   de   sentido estabelecido é como sociedade sem destino político.

Todo  buscam (menos  as  minhas  leitoras  íntimas) –preconceituousadamente –ao ingerir  o  poema  (mesmo  sem  mastigá-lo)  digeri-lo  no  facilitário  dos  sucos  ávidos  do simplismo,  porque  ao  espírito  não  convém  complexidades,  quando  o  ócio  impere  sobre  o negócio  (aleatoriamente).  Caso  não  achem  logo,  de  súbito  decúbito  espiritual,  o  sentido fácil, a indigestão é fatal, e o vômito, incoercível.

Essa  busca  do  sentido  perdido  na  arca  de  palavras,  que  é  o  poema,  é  o  que  todos fazemos? Ou deveríamos  fazer.

Essa  busca  do  sentido  (e  não  seu encontro, sua decifração frágil, desencantamento do  espírito  leitor)  é  o  sentido  da  poesia –e  não  o  do  poema,  que  é  indiferente  ao  leitor. Sentido  que  se  desdobra  insensatamente  pelos  labirintos  da  página (leitor  indecifrável  do poema,  Teseu virtual, com o fio da intuição, adora o Minotauro).

Diferente  o  sentido  da  prosa,  que  é  implícito  e  explícito,  sob  pena  de  não sê-la, ou sê-lo poesia.

Sentido  linear, as marcas do finito e do perecível no corpo do poema,é ilusão.

A poesia é o caos invisível em cuja essência harmonia há.

Ser  invisível é ser inalcançável. É o ser da poesia, tenha forma de poema ou não.

Ler  um  poema  é  a  largada  (no  grid  da  página)  de  uma  busca  inencontrável,  do perdido  e precioso sentido –e se sabe que para o antemão dessa busca não há solução (de continuidade),  nem  ela  cessa  (nunca),  pois  incessar  é  o  seu  destino,  do  leitor que  lê  e  da poesia que é.

O  sentido  antecipadamente  estabelecido  é balela. E leva o leitor ao beleleu –e não a pasárgadas.

 

Murilo Gun

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