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Qua, Jun

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2.1. ESBARRANDO NUMA ESTRANHA POESIA

Aceitei sem rodeios a proposta do professor para analisar algumas obras de Vital Corrêa de Araújo, não imaginando quais caminhos iria adentrar. Fiz uma visita ao blog de literatura e deparei-me com um dos poemas escolhidos e postados pelo nosso anfitrião virtual e fiquei estagnado e comovido. As metáforas utilizadas com muita técnica e rigores intrigantes do autor me causaram uma estranheza. Uma linguagem bastante aguçada, abstrata, densa e apesar dos poemas serem de versos livres estamos perante uma obra clássica. Quando afirmamos que não havendo imagens não pode existir poesia, então, dá-se a entender que Vital Corrêa de Araújo é abarrotado por ela. Por que seus poemas mais parecem uma mistura de Pablo Picasso, Van Gogh e até os quadros surrealistas de Salvador Dali.

 

 

Em outros momentos, prefiro dizer que seus poemas são tão belos quanto um quadro de Rembrandt. Existem cores, matizes, sombras, vórtices, luzes, vértices, nuances, um arco-íris em volta da lua. Faço referências à pintura e à literatura como duas artes apesar de serem distintas em relação aos meios utilizados, ambas, às vezes se condensam porque conseguimos ver poesias nelas.

O prefácio do livro: Palpo a Quimera e o Tremor é de um vislumbre perfeito, mais do que um prefácio é um resumo simbiótico. Um verdadeiro prelúdio, antes de ser uma prévia e uma pré (visão) de todo livro. A forma natural ou, poderíamos dizer, normal de um prefácio seria simplesmente a apresentação da obra. Entretanto, em forma de poema no formato de homenagem, ou um poema por encomenda, nos deparamos com um poeta Semi-Vital que verbaliza e vitaliza o autor em versos que se co-identificam com o autor do livro. O prefácio se imiscui, coligando-se com o autor num hibridismo parental poético.

Fiz um desafio a mim mesmo de extrair dos poemas de Vital não apenas uma abordagem técnico-literária da sua obra, mas também uma análise psicológica, filosófica e teológica na escolha de apenas três versos do poema “Átomo de Palavras” que são os seguintes: “a madrugada é o meu divã” (pseudopsicólogo), “a cupido cego devo a luz dos meus olhos” (pseudofilósofo), e “O futuro tira das entranhas o profeta” (pseudoteólogo). Escolhi esse tema pela intertextualidade presente neste poema ademais de uma louvável originalidade por parte do autor.

Desejo fazer uma ressalva pelo requinte exagerado do uso de palavras; apesar de o poeta usar por vezes expressões e figuras simples, existe um rigor poético exacerbado e termos muito técnicos, ainda que esteja em contato com apenas uma de suas obras. Queria deparar-me com uma linguagem mais coloquial sem beirar o simplório e o previsível, uma obra distinta de um Palpo a Quimera e o Tremor. Será que o autor não passa de um escritor que vive uma personagem sofisticada numa fuga evasiva de vinte e quatro horas num enclausuro indomado, sonhando em receber prêmios e ser aclamado pelos grandes acadêmicos? A eloquência não tomou conta de ti, Poeta? É o desejo de sermos eternamente lembrados.Sugiro, então, para tua reflexão:

EMBARGO DE PALAVRAS

“O poeta tropeça

o pote esbarra

gira  na porta da pia

para no próximo

rio largo

lago de palavras”

(Poema não-editado Humberto Cândido)

2.2 “A MADRUGADA É O MEU DIVÔ

(Angústia Cura - Pseudopsicóloga)

 

No ventre-metamórfico do poema, a madrugada transforma-se no sofá sem braços e sem encosto, o divã. Mas onde está o psicanalista e o paciente? A estruturação sistemática da teoria psicanalítica, baseada na relação entre os processos mentais conscientes e inconscientes, necessita de um especialista. Pergunto novamente: Onde está o psicanalista e o paciente? Ele está aqui! Estamos aqui! Somos ambos: médico e paciente. Não afirma a sabedoria popular: “Somos um pouco médicos e loucos?” A noite é suficiente. Ela é longa. São horas que vêm para uma mente que mente para si mesma e não sossega Morfeu.

A poesia, com sua singularidade rítmica que está disposta em palavras que se relacionam, nos fornece concepções e indagações para compreendermos nosso mundo interior. Deitados na madrugada podemos, solitária, dicotômica e tricotomicamente dialogar e num transe: o id, o ego e o superego são nossos ditadores. É o eco da voz de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.”

Augusto Cury, M. J. Ryan, R. R. Soares, não são suficientes. Leituras sistematizadas, orações marcadas, iogas e devoções diárias tampouco, quaisquer outros livros de autoajuda são espúrios e insignificantes. Para o poeta, a madrugada é meu divã. Enquanto muitos dormem o sono dos anjos, o insonioso acordado se debate no acolchoado frio e negro da madrugada. As neuroses múltiplas sobrevêm e depõem contra nós mesmos. Ao invés de o psicólogo ser nosso amigo ou apenas nosso ouvinte, somos constrangidos a curarmos a nós mesmos e refletirmos sobre a vida vivida, às vezes não vivida.

Os processos que ocorrem na mente, na alma, na linguagem são bem subjetivos. O desenvolvimento embrionário humano é bastante complexo quanto mais as estruturas mentais. Estas são mais complexas do que o próprio universo. Sigmund Freud arranhou as bordas da mente humana, se é que ele chegou a beirá-las. Tenho minhas reservas, não por ser behaviorista. Porém, não posso deixar de afirmar que as teorias científicas deste médico neurologista são estudadas por universidades no mundo inteiro. A própria palavra utilizada por ele como “complexo de Édipo”, complexo não como no sentido de falta de clareza ou obscuro, mas como trauma, sistema de ideias reprimidas, de forte valor emocional, interligadas num todo capaz de gerar um comportamento mórbido, perturbação psicológica, especialmente timidez, inquietude ou dificuldade de trato de qualquer indivíduo. Tal sentido ainda que específico soa um tanto ambíguo, pois, a mente é complexa e tudo o que  nela se desenvolve é enredamento.

Os sonhos serviram de mecanismo para interpretações sobre os problemas emocionais do homem, segundo Freud. Mas para sonhar é necessário o sono. Encontrar-se na solitária madrugada é debater-se consigo mesmo. É uma luta contra o eu mais interior. E quem ganhará a luta? Espero que todos. Peço permissão ao poeta para que o divã volte a ser não o almofadão onde os turcos costumam sentar-se, mas tão somente e simplesmente um lugar para que eu possa descansar de mim mesmo.  E que apenas a madrugada seja ela mesma, isto me será suficiente.

 

2.3. “O FUTURO TIRA DAS ENTRANHAS O PROFETA”

(Bney Yacov - Pseudoteólogo)

 

A sintaxe é parte da gramática que estuda as palavras enquanto elementos de uma frase, as suas relações de concordância, de subordinação e de ordem. Uma pontuação altera o sentido sintático e semântico, quanto mais os sintagmas de uma oração sendo alterados e deslocados de sua ordem tradicional. Caso isso ocorra, surgirão novos sentidos e novas interpretações hão de brotar. O poeta que busca uma originalidade, uma marca que o faça diferenciar dos outros pode usar da intertextualidade. Todavia, o senso comum ou homem comum diria, ou melhor, asseguraria o teólogo trivial: “O profeta tira das entranhas o futuro”. Mas quando o autor, entretanto diz: “O futuro tira das entranhas o profeta” não cabe nas palavras, no papel e na literatura, é deveras intraduzível. Estamos diante de uma afirmativa metafísica. O próprio futuro se encarrega de gerar da sua existência presente um profeta que o garanta co-existir. É como dizer: não sei se sou dominado ou se domino. Na minha pretensa compreensão, ainda assim me atreverei a um dialogismo.

É a poesia trazendo nova luz ao que estava oculto. Não é algo novo em si. Porque não há nada novo debaixo do céu. Mas é algo que estava diante dos nossos olhos e que nós não conseguíamos enxergar. E se enxergávamos, éramos muito míopes e mudos. Num tempo de pós-modernidade, a nos envolver e de um relativismo dominante, deparamos diante de um texto que nos remete a uma nova ideia de que o futuro é quem comanda. Ele determina o presente, não um fatalismo, mas um futuro que tira das entranhas o profeta. Será Deus o futuro? Quem responderá não será o autor, mas o leitor que assim o interpretar. Mais do que interpretar, ele irá provar o acontecimento. Este é o encanto da poesia. É das entranhas que se geram os filhos e o futuro é o pai do profeta. As bordas do presente projetam um futuro que se esbarra no tempo em que o profeta fala.

A decisão de crer ou não no que foi delegado ao ouvinte é indiferente. A profecia se cumprirá. Por que o futuro nesse poema não é o algo, ou o acontecimento que está em tempo distinto do profeta. Pelo contrário, é o próprio futuro-presente, é o início e o fim no “átomo de palavras”. É o depois no agora que faz com que o agora se manifeste em profecia que há de se cumprir. Não por mero capricho de Deus, mas pela vontade daquele que decreta e deseja que tudo aconteça segundo o beneplácito da sua vontade. É o futuro interagindo com o presente. Fornecendo-lhes poder e força para prosseguir nas pisadas do caminho do acontecimento. O que está por vir é possível por que eu digo que assim diz o Senhor, assim falou o profeta.

Temos que sair um pouco das raias do incrível futuro e voltar para o aceitável presente. Como disse O Apóstolo Paulo: “Por que em parte conhecemos e em parte profetizamos”? Sem contar que estava ficando quase impossível de ser crido, ou seria de ser cumprido? Mas esse é o valor do diálogo, da leitura, da poesia, da arte. A verdadeira arte que vai além do apurado talento técnico. Ainda que muitos a adquiram por meio de aprendizagem e disciplina, se ela ocorrer, é o homem sendo escravo de um desejo de ser mais do que simplesmente homem, na terra dos viventes. A arte é o reflexo obscuro e opaco da imagem de Deus no homem. E a literatura faz bem em parecer uma deusa.

 

2.4. “A CUPIDO CEGO DEVO A LUZ DOS MEUS OLHOS”

(Aristófanes Lux - Pseudofilósofo)

 

O amor é cego. Essa é uma afirmativa antiga. O poeta Humberto Cândido, discorda em sua obra, Cinco Poetas e um Luar e expõe numa pergunta retórica: “Dizem que o amor é cego. Mas como pode ser, se o amor vê beleza em tudo”. Estamos novamente num diálogo intertextual, um texto que remete ao amor e mais especificamente a Cupido, personagem em que o autor retrata-o puritanamente. Por vezes, diferente do que os livros de mitologia o apresentam e possuidor de uma natureza ao mesmo tempo cruel e amistosa. O amor, como puro sentimento, é banal se não houver obras. O poeta devedor afirma conseguir enxergar pela atitude altruísta e nobre de Cupido.

Escapando desse sentimento romântico sobre o amor sigamos as vias da realidade, ou mais propriamente ao realismo. O iluminismo poderia ser o Cupido. O Século das luzes trouxe ao homem um novo pensamento sobre a razão e a literatura. Este termo foi empregado pelos próprios escritores do período, convencidos de que emergiam de séculos de obscurantismo e ignorância para uma nova era, iluminada pela razão, a ciência e o respeito à humanidade. Os olhos da razão podem ser cruéis. Ver a vida como ela realmente é. Tarefa difícil. O homem sempre busca uma escama nos olhos. Ou um argueiro qualquer. E atualmente as maquiagens e o photoshop transformam o aparente feio no suposto belo. Dizem que o pior cego é aquele que não quer enxergar. Então, o homem atual identifica-se com esse axioma. O sentimentalismo obscurecido existente entre os românticos foi iluminado pelo realismo.

A literatura tem o papel de não apenas produzir a arte pela arte. Mas em conduzir, construir, estabelecer e contar a história. Não como desejamos, mas como ela realmente ocorreu. Uma história que é redigida no momento em que está ocorrendo e não como fontes produtoras de uma história contada e fragmentada é impassível e pode ser adulterada. O obscurecimento pode ocorrer de várias formas. Há momentos em que apenas a luz não gera, ou necessariamente não produz a visão. A entrada da luz através do nosso sentido ocular necessita muito mais para podermos ver o mundo exterior. Quem necessita de guias são os cegos, mas a assertiva de recebermos a luz de outrem é bem convincente, porque não somos seres segregados em nossa essência. Apesar de a segregação ser algo presente no homem, todavia, sociologicamente reunidos em massas. A leitura que você faz desse texto já é uma forma de iluminar a sua mente e expandi-la ao novo conhecimento, a reflexão e a filosofia num sentido mais prático.

Mesmo que existam diversos filósofos e diversos tipos de filosofias, sejam elas grega, chinesa, alemã, analítica e tratem do bem, ou do belo, todas farão o mesmo propósito que  é se caracterizar pela intenção de ampliar a compreensão da realidade. Apesar de que se fôssemos distingui-la, diríamos que o texto em análise teria uma abordagem no Realismo e na Filosofia que cria uma independência existente do objeto ao observador. Esta é uma concepção bem simples de exemplificar. Por que as coisas de fato existem independentemente de eu enxergá-las ou não e o que dizer do mundo microscópico, das coisas visíveis e do mundo espiritual?

Assim sendo, será a luz dos meus olhos que me fornecerá uma cosmovisão, independentemente se boa ou má. Isto é uma questão axiológica. Dependerá, além dos recursos naturais, mentais, experienciais, as lentes que estão sobrepostas aos nossos olhos. Em suma, enxergar é um ato aparentemente simples, mas que devemos ao outro.

3. POESIA QUE TRANSCENDE

A LÓGICA E A RAZÃO

Ednaldo Portela

Graduando em Letras/2012

 

O admirável poeta Vital Corrêa de Araújo, que por pura opção dedicou-se ao hábito de escrever, destacou-se em suas obras pela maneira diferente de escrever poesias. Sua forma inusitada de expressar sentimentos nos causa admiração, pois, quando está emotivo, não sente tanta liberdade para escrever, o que o torna um poeta bem diferente dos demais.

Para Corrêa, a lógica e a razão não é a beleza da poesia, nem o uso do significado dá a ela o seu devido valor. Mas é o uso da técnica e da imaginação formada por um conjunto de palavras extraídas de um universo real ou imaginário que a define. Tudo isso, com a finalidade de provocar uma reação contrária em quem ler suas obras. Algo muito interessante e pertinente a Vital Corrêa é que não observamos nele a preocupação com a métrica e muito menos com a rima, o que inicialmente nos parece algo muito estranho. Logo, entendemos que a ideia do autor é justamente nos apresentar algo novo e até então desconhecido. Pareceu bem a Corrêa mostrar que a poesia propriamente dita transcende a ideia de que ela é apenas usar as palavras com versos e rimas, o que fica muito visível em sua obra: “Ave Sólida”, onde se percebe uma maneira seca de se escrever poesia. Entretanto, descobrimos que a poesia vai além daquilo que pensamos ou escrevemos.

Na visão de Vital, o que importa é o significante na sua essência, é sair daquilo que parece rítmico, tradicional e ultrapassado para poder mostrar uma nova arte que desperte em quem ler um senso crítico e proporcione a criação de novas habilidades de assimilação para algo novo e atual.

 

 

4. O SENTIMENTO EM VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

(análise do poema Enterrem meus olhos no amanhecer)

Cícero Felipe Ramos da Silva

Graduando em Letras/2012

 

 

Faz-se simplesmente impossível definir o sentimento. Mas alegoricamente falando, apenas poderemos coligir que é este que nos faz chorar, sorrir, saltar de alegria, ou nos isolar em face da tristeza. De acordo com o famoso Dicionário Ilustrado de Psicologia (1980:298) sentimento é o “Estado afetivo brando, suave, de prazer ou desprazer em relação a um objeto, ideia, fato ou outro ser vivo.” Nesta acepção, sentimento significa a afetividade imposta em relação a outro ou outrem. Mas, em se tratando de poesia, é correto afirmar que a mesma alimenta uma relação simbiótica com o sentimento, são dois elementos que se favorecem mutuamente, chegando, às vezes, a se confundirem.

É por esse motivo que boa poesia quase sempre é entendida como aquela que faz despertar os mais recônditos sentimentos. As pessoas sentem melhor aquilo que entendem melhor. Não há fugir daí.

Parece-nos, todavia, que a poesia dita hermética se guiou por outros horizontes e fez da poética uma natureza fechada, onde os sentimentos não se fazem acessíveis ou entendíveis. A esse respeito, o crítico e semiólogo francês Roland Barthes (BARTHES, 2000:39), afirma que

 

“os poetas instituem doravante a sua palavra como uma Natureza fechada, que abraçaria a um só tempo a função e a estrutura da linguagem. A Poesia já não é mais uma Prosa decorada de ornamentos ou amputada de liberdades.”

Tem-se, portanto, o conceito sobre a poesia hermética de que esta é desvinculada dos sentimentos, buscando, no entanto, certo ilogismo, certo desregramento dos sentidos em uma intensa conciliação dos opostos.

Vital Corrêa de Araújo se enquadra entre os poetas herméticos e em sua fábrica metafórica, na opinião de Sébastien Joachim (ARAÚJO 2004:89)

ele consagra boa parte de sua obra a tematizar ostensivamente a negatividade e a metáfora. A sua intenção é derrubar o significado. Daí, a frequência de negativas e as justaposições de substantivos, verbos, e adjetivos, semanticamente inconciliáveis, impossibilitando toda representação. Ao romper os fios de Ariadne da coerência, sua estratégia poética produz no leitor um efeito siderante, causa o caos, impõe uma espécie de vazio mental, uma impressão de tontura. Vital busca uma mais valia de sentido pela renúncia tácita às imagens do mundo habitual, pela desautomatização de significados pré-estabelecidos pelas ideologias seculares ou religiosas.

 

Mas derrubar o significado não significa derrubar o sentimento, pois o sentimento, tal qual a poesia, não se pretende definível pelos escassos conceitos seculares. Em face de tal afirmativa, é possível citar Gommes (2008:20) ao esclarecer que Poesia sendo algo sem forma, abstrata, subjetiva, estará sempre ligada aos sentimentos do ser humano, por isso mesmo é intangível em sua grandeza, perceptível somente aos olhos dos escolhidos, infinitamente grande para caber num poema, ou numa tela, ou em uma música, ou em qualquer arte.

Assim sendo, poesia e sentimento são elementos indissociáveis, vivem mutuamente na simbiose da emoção. Onde há poesia há sentimento, onde há sentimento há poesia. Mas como, pois, justificar o sentimento na poética hermética vitalina? Atente para os versos (ARAÚJO, op. cit. 11):

 

Enterrem meus olhos longe das ciladas do tempo

perto das estrelas, entre feras e mosaicos do céu

ou na cerâmica do horizonte, além das gaivotas.

 

Neste fragmento do poema Enterrem meus olhos no amanhecer, se nota um sentimento evasivo, que busca estar além ou livre da atuação do tempo ao deprecar “Enterrem meus olhos longe das ciladas do tempo”, que anseia a ascensão ao querer estar “perto das estrelas”, que deseja o sublime ao observar que sua visão – seus olhos – se concentre entre “as feras e mosaicos do céu” e, desta feita, estaria (sua visão) apta a enxergar os multiformes da poética universal. Em VCA é preciso estar atento e ter uma visão, digamos assim, multifocal das relações poéticas. Ou como diria Admmauro Gommes em análise da obra Alma Mística do poeta Cícero Felipe (FELIPE, 2011:08) “Ele é um provocador de situações inauditas, mas entende que a grandeza de seus textos existe após diversas tentativas de se aproximar do perfeito e do inatingível.”

Portanto, o sentimento em Vital Corrêa de Araújo não se faz meramente negado em detrimento de uma linguagem rebuscada e de dificílima compreensão, mas nasce – o sentimento – sobretudo, da confrontação dos opostos, da conciliação dos inconciliáveis; porque é dos intensos contrastes que o Vital poeta nos sugere os tons e os aromas do sublime e anuncia deste modo os parâmetros de uma nova poética.

REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Vital Corrêa de. 50 poemas escolhidos pelo autor. Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2004.

DORIN, Lannoy. Dicionário Ilustrado de Psicologia. São Paulo: Livraria Editora Iracema LTDA, 1980.

FELIPE, Cícero. Alma mística. Sirinhaém: Gráfica inovação, 2011.

GOMMES, Admmauro. Intradução Poética. Recife: Edições Bagaço, 2008.

 

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Murilo Gun

REVISTAS E JORNAIS