06
Seg, Abr

destaques
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Sinto-me causado por elementos sem corpo

por vésperas de feitos ressuscitados

por hinos de outono, por folhas de acanto

o alento foi-me fuzilado como uma bofetada

nos pulmões ávidos de espaço e fluxo, ar

de que devoto e sôfrego fogo necessita

para fender a pedra, chama líquida

odre empedernido, caixa de pássaros, lume

varre a terra, desola a alma, fuga infinita

  

o falo da palavra, hímen do poema escavo

 

 sombra de mostarda, fuga para o éden renato busco.

 

Olho as páginas de um ventre escrito

estrelas entreabertas, coxas celestes, lumes arcanos

 

a joelhos de palavras me devoto, acato

mar estremecendo em minhas mãos escuras

ondas revoltas esmiuçando preces de gaivotas

  

mapas crivados nas linhas do precipício do rosto.

Jardim podado, mundo perdido

no interior de suas cores fúteis, adjetivas

fúteis adjetivos corroendo o poema

a branca alma da página corrompendo

moenda de palavras, pó imagético, ígneo gesto

do poeta esclarecendo o sexo

das coisas estéreis objetos sem ventre

 

escanhoando o mundo humano como pilão divino.

 

                                  Ao coração movediço do homem

                                  me confesso

 

Vozes podam o íntimo

como se foices instantâneas fossem

punhais transitórios como o dilúvio

escaneiam nossos áridos espíritos

esperanças perigosas nos acossam

nos levam do distúrbio à derrota

  

seguindo os instantes chegamos ao impasse.

 

 Percorro o ventre letra a letra com volúpia

e encontro-me nos braços de outra morte

que me lê, verbo tenro, ávido, finito

como a fome ou o comício

 

 os matches, as comendas, os intestinos

do triunfo, o alarido escuro, a pedra da página

o esquecido paramento da náusea desprezo.

 

 Tudo o que seja degredo e manhã humilho

acácia e aurora são desperdícios

o nome íntimo da dor é sacrifício

a verdade fulgura nas bandeiras derrotadas

  

 nada mais alimenta o homem

do que a palavra imprecisa

de que o espírito se vale para ser indício.

  

Céu  estrebaria de estrelas.

As trinta moedas de Judas

eram estranhas. Algumas

eram de tântalo, outras de urânio avaro

com traços de ureia mecânica.

 

Das sete meio conservadas

sábios ourives, sérios numismáticos verificaram

debruçados detida e tecnicamente

serem de ouro de tolo e prata falsificada.

 

Embora corretas de forma imperfeitas de fundo.

 

O banqueiro que contratou Judas (beijoqueiro)

ou o empreendedor que o pagara

era moedeiro falso perfeito.

 

Burlado com lassas moedas sem lastro

escapando dos dedos traidores

Judas apenas enforcou-se numa haste

triste de figueira tempestuosa.

  

Tenho dó do Porto do Recife.

Embarcações ao léu.

À deriva a dor

dos barcos abandonados

presa de amarras  eternas.

A ferrugem, irmã da água, em festa

no cais do Porto do Recife.

Gruas sofrendo.

A angústia dos guindastes às claras.

Doe-me o Porto do Recife.

 

 

Murilo Gun

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