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Qua, Jun

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VCA

Há dois curtos poemas de Holderlin, nos quais se refere a Heidelberg, cidade alemã milenar e velho centro universitário, que se destaca pela antiquíssima e majestosa ponte e pelo mais velho ainda Castelo (imobilizado no tempo ou mergulhado de peito na plena eternidade).

Da larga ponte e extensa se avista “O caminho dos filósofos, uma sinuosa e calva serpe de passos (e fui lá)”, passos nunca perdidos e sempre meditativos.

 

Num destes poemas, fruto de retrospecção, o introspectivo poeta e divo medita. “Quando vadio e no gozo do ócio do silêncio/ eu passava pela ponte (do tempo – que unia o momento perdido e a hora do poema)/ fugindo dos homens em busca do Ser/ lembro de mim agora (e dantanho) e me comovo”. (Tradução sobre versão castelhana).

Sem sabê-lo, ainda, Holderlin atravessava o destino. Ele ia de Iena a Nurtingen – com Heidelberg no caminho, como destino.

Aqui, falo eu (fa-lo-ei, o poema).

Vi, trêmulo e extremo, jovem e marcado pelas mais trágicas parcas (ou amorosas moiras), Holderlin atravessando o tempo em busca de si (a quem cedo perdeu).

Nele já se preanunciava a patológica (poética?) ferida que o deixaria 40 anos insanos ao leu de um sótão da casa de um pobre marceneiro – com o nome de Scardinelli, a que ele mesmo se alcunhou, como para não se sentir, na pele doente, na alma perdida, como Holderlin, o deus, vindo da velha Grécia para o século.

Na primeira passagem pela milenar cidade de Heidelberg que abrigava – como até hoje, complexo universitário profundo, marcado o trânsito num poema (feito retrospectivamente, anos depois), ele estava – sem o saber, dirigindo-se a Diotima (quando encontraria Susette Gontard, bela e jovem mulher casada a quem Holderlin amou platonicamente... e foi por ela platonicamente correspondido.

Por ocasião da segunda passagem (início do verão de 1800), o poeta, jovem e já amadurecido pela sabedoria e pelo sofrimento, possuído pela retrospecção nostálgica, de que sua imaginação retira (da memória daquele trânsito) um poema vital, isto é, fixa, num poema muito posterior, uma situação vivida anos depois, ele já era potencialmente o poeta dos Grandes Hinos (verdadeiramente, legitimamente homéricos).

E a presa (neurótica mandíbula) da esquizofrenia já nele estava assentada.

Situações existenciais (vitais) são simbolizadas pelo rio que corta Heidelberg (água que se perde no infinito de uma foz poética). E também o rio que o carregava aos braços (surdos) de Diotima (a musa dos grandes poemas, os mais líricos dos últimos séculos). São exemplos ou denunciam sua incoercível nostalgia da totalidade (bebida em seu ébrio amigo Hegel, a longos tragos filosóficos e haustos líricos) e do ilimitado poético que o devastava e sublimava.

Era um rio que se perdia num instante (VCA).

Essa outra situação existencial de Holderlin é simbolizada pelo Castelo (sobre a ponte) que reina soberano sobre o vale, alto e magnífico, como se quisesse arranhar o céu... ou saqueá-lo.

Holderlin pretendeu ter por deusa a necessidade, diz um crítico anônimo. É que ele sempre assistiu ao prélio renhido da vida com a morte, do amor com a solidão; ao  embate do infinito com a eternidade, à batalha longa do etéreo com a realidade da fantasia, à lide majestosa do finito com o intemporal. Holderlin sempre creu nos deuses gregos, amante da Grécia clássica, que era. Conversava com Orfeu, palestrava com Empédocles, Hipérion era seu amigo solar (e personagem).

Também esses poemas demarcaram uma visão prospectiva, a nostalgia do futuro, uma atitude profética (qual Cassandra prevendo a própria desgraça e a queda de Troia). Poucos anos depois, mergulharia o Poeta na plena insanidade (embora nela escrevesse versos inapagáveis), que durou 40 anos (até 1843).

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Murilo Gun

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