06
Seg, Abr

destaques
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O tempo é uma rua de Paris

cheia de pacíficos murmúrios

e rumores de serpente persa

dos vândalos gozos

das usinas de absinto estrelado

com uivos verdes de anis

e tédio cintilante

como magnólia de Matisse

perdida entre sementes surreais

de Tâmaras setecentistas (centesimais)

ou brotando do sopro de uma flauta surrealista

talhada de um vértebra sublevada de Breton

 

Rua, latada, vereda ou horta música e mística

sons de ossos dadaístas

acantonados na Suíça.

 

(As vértebras francesas do tempo aguentam

– sem trema, tremor ou temor

chusma de espaços cósmicos

fuzilando a rótula da hora).

 

O tempo além da Tâmara

(depois do lis e da comuna

pós-napoleônico e rebelado)

vem num junco chinês

(padiola, élitro, mácula, palanquim ou cupê)

pende de uma clavícula de Maiakovski

semelha víscera de Aragon

fêmur de Eluard

(com quem a liberdade das horas parece-se).

 

É uma bandeira que tremula

(tarantela russa, balé de Rasputin)

fincada no abdome de um general

(servil ao capital que aquartela ditaduras)

como roupa no mais vil varal

exposta aos ventos do vilarejo

que Deus esqueceu em Portugal

            (dos cafundós dos Judas vem ruído de notícia).

 

É uma balconista boujando

perto de uma sarjeta industrial

(o gas metano da usura alimentando alvoradas

pálidas como a injúria ou o descompasso).

 

Ou uma paisagem milimétrica de Funchal

o microcosmo cônico do Curral das Monjas.

 

Tempo é dinheiro, pragueja o banqueiro

e não se deve perdê-lo com poesia

 

o tempo industrial, cívico, palpável.

 

Tempo é uma gleba

arrendada a um estranho numa feira

duma vila que Deus esqueceu.

 

Tempo vale

a santa usura de cada dia.

tempo não é Tâmara.

nem precisa de aleluia.

Murilo Gun

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