Acaso feito de silêncio lilás
que cresce em muros
ou do movimento de um torno usinando
seios negros
(como aparato de metáfora
preparando o poema.
Ave lâmina, alma de navalha
navegando no lábio.
Acaso feito de aloés lento
e zelo de outubro
além de avidez e ânsia azul.
Acaso dos olhos das janelas de janeiro
da alma das estradas do corpo
dos delírios de outubro vermelho
acaso dos aromas de uvas e estrelas
dos percursos de cideira
das hóstias de graviola
e de tudo que jaza
na pena do poeta.
Acaso dos êxtases azuis
e das cores geométricas
dos frêmitos trêmulos
e das movediças insolações
loucas como sons de escaravelhos
nas arenas do Sahara.
Acaso o brinco de tua alma
ainda estremece como outrora
quando meu corpo sujo
desabava abrindo-te as carnes?
(Questão íntima de múltipla memória).
(Acaso madalenas de santas ceias
de vez romperam o monopólio do homem!).
A Cioram
e as suas insônias
penduradas das pálpebras
(irmãs postiças de Freud)
Ao ensejo da leitura de Admirações e Perfis
(a bordo do Bleu de France
em pleno périplo atlântico)






