Ninguém é meu nome
sou da longa linhagem do nada
incompleto pária, touro castrado
épura sonolenta, vitral de soslaio
cacos de cores, celofane amordaçada
gravura de cromo, cinéreo instante
sombra poluta, adiada dor vital.
Nasci para ser ímpar ou dúbio
pária impuro
e vou embora logo para quando ou insabido onde
(assim que o futuro terminar).
Onde é o lugar que habito desde ontem
é assim que volto ao passado de ser
(recuperando as carnes desperdiçadas, talvez)
ou apenas completar o desser.
Meu tempo é sempre trânsito
mero pretérito imperfeito atravessado fui
futuro é nunca
sou ultrapassado pois (porque)
meu nome é Ninguém.
a Séssilu e Uéssido
irmãos fraternos de Ninguém.
(Será que Ulisses mediu o falo de Polifemo bem?)
Acúmulo de auroras desmensurando
auréolas de luzes em expansão vital
para aprazável canto propiciar
aos mais profundos e dissonantes escuros
a noite se construindo de dados claros
adornada de vestgios impuros (e caliça louca)
vinho resolve a vontade, sede atça o ser
devolve sentdo todo o plural celeste
todo coro do cosmo a poema se apresenta
em torno do sentdo do voo de abelha.
Colheita de porcelana ou frutos avaros
à mesa da palavra. Só restam
então embriagados dias, luz de afã
e noites de infnita lã.
Ao tosão
Sonho com arquiteturas velozes e nada vãs
com velocinos de lã ilusa aos montes (além
de edifcios lentos ou amáveis baluartes de nada
sonho com geometrias bêbadas e indóceis corredores
muros caídos de probos labirintos, sem centro ou êxtase)
cujas sombras levam a lúcidos touros
feras do coração sem rumo
caminho que a morte percorre dia e noite.
Sonho com dilaceradas colmeias e fatgado néctar
anseio por vicissitudes e edifcios desmaiados
do pacto que fz com objurgatórias amáveis ou não
sobraram preces genufexas, cócoras de orações
ditrambos podres e um cordel de canela sem nome.
Sonho também com tentaculares utopias
chegam a meu sono campos do futuro.
A mais velha parca pedi fo de prata
um condão de tempo para a mais jovem
e a tesoura parda pedi à outra.
Vivo a escandir sem pressa
(sem a pressa que aniquila o verso)
trissílabos inteiros, inteiriços e decassilábicos pés
de trena em riste furioso
rimas perdidas garimpando num baú vermelho
(como do olho de boi o selo)
em odres de sílabas velhas
ou da víscera algo melodiosa de vetusto dicionário
algum alfarrábio de fonemas fnados
e da bateia desse árduo ouro de som talvez
ânus castos, portulanos áridos, mapas sem norte
e lençóis de sílabas devassas
envoltas em hiatos de musselina nua.






