A poesia é a outra face
o rosto escuro da existência.
Muros do abismo derruídos resta
o escuro, a desdita resta.
Palavra filosofa o vazio.
Fulgor evasivo da poesia cega.
Poesia precisa ser (ou não)
paixão, vida, revelação.
Tédio comovedor, consolação vazia
ignota esperança, página amordaçada.
Poema é feito de signos e segundos
significados. Poema tem direção mas não sentido.
Por linhas tortas se escrevem
poemas certos (e curtos).
De segundas intenções vive mau(dito) poeta.
De terceiras, quartas e quintas intenções
(venais ou não) vive poeta absoluto.
A história é deletéria viciada
seu demônio o tempo, o homem, a massa.
Treva só a rompe fartos aromas
claros como água de pássaros.
Silêncio não o perturba
folhas secas de outubro ou vã brisa de abril.
Nem rajadas que vento cósmico espicace
com pinça rápida.
Tampo de féretro é algo absoluto
(e cravo perfeito tranca o soneto).
Regresso como lua a teus braços amigos
sem demora ou ultraje
sei que noite se abre entre nós
esplendorosa e cruel como lençol ou punhal .
Treva coroa e ilumina amor.
Sombra enlaçada dos corpos também ama.
Dos arredores do poema vi
acaso de teus olhos baldios
fingindo azul.
Razões lógicas são inacessíveis
e rimas exatas terríveis.
Resta apaziguar o azul. (E de Andrade)
Átomos de Alexandre Magno
e elétrons de Napoleão ainda transitam no pó.
Cafés: oásis de inúteis filosofias coadas.
Momento tem estatuto catastrófico.
Perfumes de carvão insaciáveis.
Fuligem: cor do coração.
Mudar o cânhamo
é murchar o sono.
Proibi-lo é matar o sonho.
Dominar sensações de ser mas nunca ser
submisso a elas.
Forçar sempre as portas da percepção.
Dos adros místicos orar
por deuses ortodoxos
da tábua da lei semear
preces cuneiformes.
Reduzir a febre da tribo
fabricar sonho comprimido.
Para vacilantes sentidos oferecer
às aras do id em holocausto a razão.
Da fímbria de seda do sono
introduzir pesadelos reais e autônomos.
Abrir à náusea odre sóbrio de tédio.
À racionalidade dominante brinde
de dons herbários com vinhos de caos.






