06
Seg, Abr

destaques
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A poesia é a outra face

o rosto escuro da existência.

Muros do abismo derruídos resta

o escuro, a desdita resta.

 

Palavra filosofa o vazio.

 Fulgor evasivo da poesia cega.

 

Poesia precisa ser (ou não)

paixão, vida, revelação.

 

Tédio comovedor, consolação vazia

ignota esperança, página amordaçada.

 

Poema é feito de signos e segundos

significados. Poema tem direção mas não sentido.

 

Por linhas tortas se escrevem

poemas certos (e curtos).

 

De segundas intenções vive mau(dito) poeta.

De terceiras, quartas e quintas intenções

(venais ou não) vive poeta absoluto.

 

A história é deletéria viciada

seu demônio o tempo, o homem, a massa.

 

Treva só a rompe fartos aromas

claros como água de pássaros.

 

Silêncio não o perturba

folhas secas de outubro ou vã brisa de abril.

 

Nem rajadas que vento cósmico espicace

com pinça rápida.

 

Tampo de féretro é algo absoluto

(e cravo perfeito tranca o soneto).

 

Regresso como lua a teus braços amigos

sem demora ou ultraje

sei que noite se abre entre nós

esplendorosa e cruel como lençol ou punhal .

 

Treva coroa e ilumina amor.

 

Sombra enlaçada dos corpos também ama.

 

Dos arredores do poema vi

acaso de teus olhos baldios

fingindo azul.

 

Razões lógicas são inacessíveis

e rimas exatas terríveis.

 

Resta apaziguar o azul. (E de Andrade)

 

Átomos de Alexandre Magno

e elétrons de Napoleão ainda transitam no pó.

 

Cafés: oásis de inúteis filosofias coadas.

 

Momento tem estatuto catastrófico.

 

Perfumes de carvão insaciáveis.

 

Fuligem: cor do coração.

 

Mudar o cânhamo

é murchar o sono.

Proibi-lo é matar o sonho.

 

Dominar sensações de ser mas nunca ser

submisso a elas.

 

Forçar sempre as portas da percepção.

 

Dos adros místicos orar

por deuses ortodoxos

 

da tábua da lei semear

preces cuneiformes.

 

Reduzir a febre da tribo

fabricar sonho comprimido.

 

Para vacilantes sentidos oferecer

às aras do id em holocausto a razão.

 

Da fímbria de seda do sono

introduzir pesadelos reais e autônomos.

 

Abrir à náusea odre sóbrio de tédio.

 

À racionalidade dominante brinde

de dons herbários com vinhos de caos.

 

Murilo Gun

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