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Aristóteles, realmente o gênio da raça antiga, leitor de Homero, aprendiz de Sócrates, via textos platônicos, sabia de tudo e em tudo se metia seu saber, inclusive na poética.

O peripatético estabeleceu o movimento da ação poética ocidental dirigida ao conceito novo da especificidade da arte da poesia (da arte da palavra não mascarada de prosa).

            Uma coisa era clara para Aristóteles: poema não é verso. Ele distinguiu os escritos do pré-socrático Anaxágoras, que narrava a história em versos, da verdadeira e específica poesia. Um tema vital ao estagirista era a relação entre a arte poética e o mundo (a realidade).

            Com minha mania de utilizar termos complexos, diria: realia e imaginaria. (que colhi de não sei qual fonte).

            Essa relação entre a poesia e o real foi esclarecida e corporificou-se no conceito contido na palavra MIMESE, que adveio de mimo ou reapresentação mímica, relacionada ao cômico, ao teatro, uma outra invenção grega.

            A primitiva arte mimética era representada, no início, pela pintura (figurativa, realista) e escultura (idem).

            Aristóteles – como bom inventor – aprimorou o sentido de MIMESE, vindo de Sócrates (que Platão divulgou). À mimese, correspondia a capacidade artística para produzir “representações” semelhantes aos objetos reais (existentes na natureza) ou similares a estados mentais (realidade humana).

            Foi de Platão, a partir de sua concepção do mundo idealista, em que ao ser, ao real, ao existente, correspondia a ideia, como modelo transcendente (o que se opunha ao que posteriormente Aristóteles pregaria) que adveio o conceito de cópia ou reflexo da realidade ideal (ou espiritual). Ideia e sombra de ideia.

            Tudo, o mundo, o homem, as coisas, é reflexo da ideia que contém a essência, o modelo de todo o existente. A existência é sombra, cópia física do estado ideal. A pintura é sombra da sombra, porque figura uma matéria, um tema, que, em si, já é cópia da Ideia. E o poema é sombra da sombra da ideia. Um grau a mais do que a pintura distante da essência das coisas.

             Como homem, somos sombra da sombra da sombra. Só

            À poesia, no caso, arte mimética, cópia, imitação etc é atribuído o estatuto de reflexo servil, passiva do agente ideia, cópia da cópia, porque reflete algo que não é a essência, ideia, mas o duplo desta.

            A doutrina platônica de arte constou do Livro X da República; que estabelece, com a ideia de essência (ativa, primária) criadora, uma situação metafísica, a que Aristóteles dirigirá sua atenção desconstrutivista, libertando a mimese de seu elo vital com a metafísica. Aristóteles era, digamos, “materialista”.

            O quadro de Gioto é claro: os dois próceres da filosofia ocidental juntos: Platão, olhando para cima, sonhador, místico, idealista. Aristóteles, ao lado, com a cabeça baixa, os olhos plantados no chão, prenhes de realidade física, aos reinos animal, mineral e vegetal, que ele pesquisou.

            No peripatético genial, a MIMESE é elemento ou veiculo da produção artística, trabalho da POIESIS.

            Daí, advém o principal mote aristotélico: o aspecto criativo da mimese.

            Poema não é só cópia (do objeto, da emoção etc), mas é criação sobretudo, extrapolando o tema, exacerbando a realidade, indo a sua essência humana.

            Mimese, portanto, deixa de ser “imitação”, mera cópia da ideia, para ser “representação” e criação (invenção).

            Veja a evolução ocorrida. Da ideia (platônica) nasce, forma-se, vem o fenômeno, e, daí, do nível secundário fenomenal, vem a obra de arte, imitando o reflexo da essência. Cópia da cópia, sombra da sombra. Sem possibilidade de alcançar a essência, essa coisa inacessível, (noumenal) que nos projeta, a nós e ao mundo.

            O agnosticismo kantiano, de certo modo, regressivamente, modelaria esse complexo, que o genial Platão construiu. A coisa em si, o NÓUMENO, seria a ideia (ou essência) platônica inalcançável e soberana absolutamente (criadora).

            A concepção platônica da poesia como procedimento ou recurso que traduz o fenômeno (cópia da ideia) em imagens (artísticas) foi sobrepujada por Aristóteles.

            Um filósofo, do qual retive o texto, não o nome (do meu baú de alfarrábios, que chamo de leitura escrita), discorre bem sobre a mimese peripatética.

            Aristóteles alterou (estendeu) o alcance do conceito platônico, que significava cópia fiel das coisas (reais) preexistentes, em potencial, para aplicar tal conceito à criação de coisas, inclusive artísticas.

           

 

            Coisas estas que nunca existiram ou cuja existência, se for o caso, é acidental, acasional, ao processo poético. Em Platão, o ato de copiar (mimeticar) é posterior ao fato (o fenômeno), enquanto que a mimese aristotélica “cria o fato”. Não é a ideia que produz, modela, projeta o fenômeno, mas este provém, no poema, do próprio dinamismo da mimese. É uma inversão genial que salva a poesia, proibida ou exilada da República... e a torna realmente humana.

            Entre imitação e representação de ações flutua a noção de poética, de Platão (Sócrates) a Aristóteles, pondera Ricouer.

            O ponto frágil da concepção que Aristóteles estabeleceu para o conceito de criação poética (o poeta como demiurgo) é que, em grego, à época, acho, criação significava descoberta (euresis), isto é, a revelação de uma relação verdadeira, mas que, de algum modo, já existia, no esquema (idealista) das coisas. Aristóteles era – ao contrário dos sofistas com que porfiaria – idealista, na acepção lauta do termo.

            O conceito de mimese (como representação ativa) de Aristóteles tornou-se, durante milênios, operacional para definir e explicar a arte em geral e a arte poética, em particular.

            No Renascimento, o procedimento artístico mimético, nos termos de Aristóteles (não como mera cópia, mas como invenção), proporcionou a necessária porção de liberdade de imaginação total aplicada à arte (arte como imitação não servil, porém criadora); permitiu a execução de obras, em especial, na Pintura e Escultura – figurativas, realistas, porém inventivas e diversificadas, refletindo a individualidade criativa dos artistas – obras que ainda hoje deslumbram a humanidade. A mimese platônica, como mera e necessária imitação do real, que era essência, tornava a criação humana artística automática. A cópia era algo necessário e meio que mecânico.

            A vital individualidade artística era efeito da participação livre do sujeito poético (poiético, na acepção grega, de criadora) na atividade mimética personalizada, refletindo a percepção ou concepção particular da realidade pelo artista.

            O Renascimento (e a isso deve-se sua denominação) foi uma época artística inédita até hoje, em que a mimese aplicou-se à imitação criadora dos modelos da antiguidade clássica (greco-romana) ocidental.

            No entanto, diferentemente da mimese aplicada à pintura, escultura, arquitetura etc, na poética ocorreu uma redução, que se poderia taxar de reacionária.

            Passou-se a exigir da poesia a imitação, por palavras, da realidade. Espécie de “realismo socialista” precoce. O poema devia, transparentemente e sem disfarces, representar o real, a normalidade, coisas, objetos, pessoas, emoções pessoais, às claras.

              Ou seja, o poeta devia dizer o que vê, o que é, o que seja, fielmente, sem mascaramentos. Legibilidade (já existia a prensa) total.

            Era o início duradouro da poética normativa, normativada, normalizada, medida, rimada, organizada, tudo sob rígida regração, (tipo regra beneditina), norma estabelecida e exigida ad perpetuam e in totum, sem exceção, tipo verso livre (heresia até hoje). Liberdade de espírito, imaginação, invenção, tudo blasfemo, herético, interdito, proibido o imaginar. Punível, como coisa ruim, dada a coercitividade do sistema ou nomenclatura poética.

             A poética normativa ou normatizada domina até hoje. Vige e é ativa. Se infringida, se incorrespondida, o poeta incorreto é penalizado, desterrado, isolado (tipo VCA) exilado. Pé quebrado não é poesia. Poema sem rima não é poesia. É outra coisa... e muito estranha, anormal, sem pé nem cabeça, porque fora da caixa.

            Na sua versão mais radical – no cânone neoclassicista do século XVII – a poética normativa tornou-se uma coleção de receitas do poema, e o receituário – tal como hoje, tratados de versificação, compêndio de ensino de ritmo (metronomal), dicionários de rimas etc – para produção “poética” era rígido, legal, penalmente sancionada qualquer violação, e prescrito a todo poema, sem exceções.

            No Brasil d’agora, desde Bilac (genericamente falando), normatização da poética é padrão inviolado e generalizado; vigente, operosa, utilizada e definitiva a rigidez normativa versificatória. As normas versificativas constituem um aparato de preceitos, recomendações, regras estritas (e estreitas), mas de âmbito universal e intemporalmente válidas, aplicáveis ad perpetuam à atividade poética, em quaisquer e últimas instâncias.

            Poeta – de bom senso e normal, isto é, não “completamente louco”, como VCA – segundo o mestre Alberto Lins Caldas – pode ir em frente, em obediência à normatividade existente, que bons frutos poéticos, desejáveis efeitos, serão alcançados automaticamente. Daí, os milhões de poetas brasileiros d’hoje, mecanicamente ritmados, obedientes a centenários preceituários, instados a fanaticamente obedecer à regra, ao receituário poético (convenção métrica absoluta).

            Seguir tal receituário versificativo é garantir infalivelmente a feitura de um bom poema. Ou o melhor.

            Mais radicalmente reacionária e regressiva, foi a teoria válida (de certo modo até hoje) de que à imitação da realidade dever-se-ia suceder a imitação da natureza, como modo correto de praticar a arte poética. Mais uma “inovação” visando inibir no todo e completamente a imaginação livre (substituída pela inspiração lavorada).

                Essa exigência de clara e inequívoca correspondência das obras de arte à natureza – ou realidade natural e humana – criou, devido ao requisito de assemelhamento ou SEMELHANÇA, nova forma de mimese, diferente de cópia.

            Aí, residiu a brecha para um salto dialético criador, como o são.

            Como o sucesso ou fracasso de uma obra de arte (no caso da poesia, arte da palavra criadora) dependia basicamente da obediência estrita – restritivamente – à norma ou exigência de semelhança, passou-se a enfatizar a similaridade em si – e não mais estribada na natureza. Porém, sim, na “natureza das coisas”. De imitação  ou representação, pulou-se à similaridade. O que foi um avanço em direção à modernidade que vivemos hoje, desde o séc. XX.

            A poesia absoluta não é mais que um desvio aberrante, deformante, radical, perpétuo dos modelos normativos e miméticos do poema. E como tal, tais deformações – como a pintura cubista – não são aceitas.

            Ela (a PA) não busca protótipo para o poema, como uma emoção particular, um sentimento ou sensação amorosa, norma de semelhança, regra versificativa (que sancione o poema).

            Ela não depende (a poesia absoluta) de uma natureza, objetiva ou não, para validar o poema (com algo a que se assemelhe).  Tipo referencial do mundo ou do si. A imaginação cria o incriado ainda.

            A passagem do conceito restrito de natureza, ao mais amplo contemplando Deus, o homem e as coisas (o mundo strictu sensu), propiciou a que representações artísticas fossem representações existentes, na natureza em geral (incluindo a natureza humana e divina), porém com predominância nas coisas humanas.

            Isso validou (e expandiu) ainda mais o critério artístico de similaridade (até hoje válido), porque a natureza, como modelo, é primária, básica; a arte, sua representação, é secundária, e a norma de semelhança entre os dois âmbitos passou a ser o critério de perfeição artística.

            Hoje, a poesia popular (primordial, culturalmente, em geral) não é similar à poesia erudita (como de Bandeira, Cabral, Murilo Mendes, Mauro Mota) e ambas têm seu nichos, seus nomes (e numes, como Louro e Jó do Pajeú) tutelares... e seguem em frente, apenas contrariadas ou contaminadas por imitadores de glosas, sem raízes populares, e poetas normativos literalmente fiéis a velhas convenções resistentes, embora apodrecidas, só aceitáveis no velho Brasil.

             

 

 

Murilo Gun

 
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