06
Seg, Abr

destaques
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Ébrios deuses aportam do meu rosto volúvel

começam ruidosa empresa

de acordar  rios e veias

fluindo de mim.

 

Adio sílaba pressaga, unto

de argumentos macios ferida

que palavra abra no poema

(porque poesia é a palavra enlouquecida

e a loucura verbal não cessa

com morte transitória do poeta).

 

Quilha da loucura aponta

para mar do amanhecer impuro

 

água sóbria não a governa

apenas desancora

do cais da página.

(do poema Desâncora viva)

 

Encontrei CDA no meio

do meu caminho poético baldio

e pedregoso como arrecife ou abrolho.

 

Este é um país de pedra

orvalho vermelho

sal indômito (ou selvagem)

e musgo esquecido

na ladeira

em que lua não bata.

 

Não adules o poema, diz Drummond

nem o leitor dele, digo eu.

 

Tempo de ásperos homens (VCA)

e maus poemas (CDA).

 

Só blasfêmias

e atrocidades viris.

Só.

 

Fibrilas flutuando

alastrando-se como ervilhas curtidas

sobre cálcio iluminado

cravejando de asperezas e diásporas

cápsulas de espelhos cegos

enraizados na alma do poema.

 

 

Íngremes sais, silos de cios

suntuosos sumos (que me enleiam lábio turvo)

quilos de cevadas, cardumes de afetos

dilúvios de abismos, apogeus de genitais

tudo me devora no poema.

 

Montanhas de cios, bátegas de ócios

abismos de luz corrêa de araújo

dilúvios de sumos cavalcantis

resmas de sais albuquerques

acepipes, cipós, intrincados enxames de olhos

seda e pó, grosas de dantas barbosas

hóstias de ossos escarlates

e fluxos interruptos

tudo oprime a palavra defunto.

 

(No meio de minha morte tinha duas pedras

alicerces de lápides, laudos de basalto dos nomes

e das datas irrecorríveis, como decretos nus).

 

Tudo abrindo nervuras novas

na folha do outono já flácido.

 

02.11.2011

              Após velório poético

              (confessando-me)

 

 

Tuas mãos detêm o sal da palavra

que salva pomar das manhãs inteiras

tua boca traga lábio do porvir.

 

Dura rio seu poente como pássaro

que não aflui da pedra nem do pânico.

 

Respira ainda deus moribundo

que te emprestou o sopro

(que provisório alento instilou

em tua alma de sombra pelas aéreas narinas).

 

Do som dos olhos

da água amotinada

vem o amanhecer da palavra

na pedra do poema encontras

dilúvio de lápides

porque adoras rumor de epitáfios recentes.

 

Murilo Gun

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