Trevas passadas.
Cinzas por vir.
O escuro ainda vem.
Olhos que a veem morrem.
As cinzas do porvir
estão perto de nós.
É nós?
Só o nada não tem
não faz cinza.
Só a eternidade do nada
é viva. E sábia.
Só o mar que é morrer
sabe da cinza e do nada
(irmãos que se amam, talvez).
Árido labor (de grã amante)
encontra sede em outro lábio
(como se fosse maná ou manhã).
O obstinado (e rigoroso) canto
martelo santo, tamboril de encanto
férreo e etéreo do sabiá
como arrulho de flores de setembro
reencanta a paisagem, soa no ocaso
como melodia escura
porém cria o amanhecer
a cantoria.
“Cada manhã traz verbos irregulares”. Auden
Aprendo o som da manhã de Água Preta
com os pássaros (ajoelhados nos cajueiros)
escutando o lábio da árvore sabiá
(o canto do cair da folha ou rumor de rosa abrindo).
Ou sentindo o som do sol no olho rural
luz penal que absolve o mundo de toda dor.
Ou graves sombras indo embora vendo o som do amanhecer.
Morrer?
Verdade não vive do rosto.
Se alimenta da máscara.
O que é mais real?
Narciso ou rosto de água?
Um homem ou beleza líquida?
Eu sei-o.
Hei de morrer seivando, sentindo
cantando (gema cigarra do eucalipto).
Escutai-me, vós, que não morreis
mas não cantais. E invejem-me.
Em cada erva, asa, pedra, sino estou.
Estáis? Onde?
Eu me voo (o espírito)
mas ficam pássaros cantando
(pois todos são um e eu sou outro).
É a voz da luz na garganta
do aroma na boca da beleza.
A um canto o eco de outro se reunirá
pássaros imaginários à fantasia do meu ouvido.
Só ocos homens não ouvirão.






