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Qua, Jun

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Gratifica o espírito e o tempo conhecer (revelar), incentivar (e escrever sobre) um talento literário, cada vez mais raro pela complexidade da poesia.

Principalmente porque o desastre dos primeiros poemas encarrilha-se vida afora e íngreme torna o caminho para a melhor poesia. De um lado, o arrebatamento, a ânsia de confessar-se, o turbilhão de sentimentos, do mar encapelado do coração às igrejas ardentes do desejo, o voluptuoso mas pantanoso tumulto das sensações – não coadas – derramadas das páginas da alma no papel branco (que tudo recebe, de uma mancha a um verso inocente, disparado ao ímpeto de uma emoção traiçoeira): esse arrebatar rebenta-se em poema sem poesia, em versificação sentimentalóide e curta; do outro lado, o filtro de sentimentos, sensações, emoções, através dos poros complexos, inusitados, incomuns e mágicos da linguagem.

 

O canto que não decanta desencanta.

Com Helga, o canto é melhor porque ela sabe livrar-se das ciladas, dos ardis, armadilhas (de rima) e seduções do confessionalismo incontido, do chamado derrame lírico, vazado (ou vomitado) em primeira pessoa.

Helga Fonsêca já nasce poeta (em livro) quase pronta, ou mais do que isso para sua idade, que não direi, porque descortês, deselegante, impróprio e inadequado (não sou).

Só o time de epígrafes, a seleção criteriosa e criadora de textos de Goethe, Baudelaire, Novalis, Augusto dos Anjos, Cecília e Clarice – e da ímpar e íngreme e encantatória Emily Dickinson, deixa-nos tontos e embevecidos (os leitores hão de vibrar, desde a epígrafe até o fim de cada poema e do livro todo).

O que surpreende em Helga é o instinto, a intuição, que tem da poesia moderna.

Não sei se – leitora de Emily D. – ela passou dos limites e chegou à veia, última fronteira (via de fatos interiores), e, mais do que beber, embriagou-se do forte, encorpado, curvo e fáustico vinho da fábrica de Amshest, mina de palavras de que mana o verbo poético definitivo.

Só sei que Helga Fonsêca é mais do que uma promessa e inacreditável realidade, é uma poeta (não poetisa, que soa frágil e muito romântico para nossos ouvidos) astuta, paciente, no manuseio e uso da palavra (embora sempre intuitiva), felina no pulo que leva ao botim da poesia, gata no salto exato ao coração do leitor.

Última lua, À meia luz, As flores do meu adeus (1, 2, 3), Batalhas de opiniões, Crepúsculo do outono são poemas que eu assinaria e que todos os jovens deveriam ler, com a ternura áspera de quem descobre o mundo interior, vivo, palpitante de expansão, a vida por dentro assoberbada de sonhos e utopias joviais; jovens leitores de Helga que queiram imergir nas torrentes do também jovem inconsciente de uma garota disposta a abrir suas trilhas na floresta perigosa das palavras (prosaicas), cujo espírito assume os óbices e as benesses de estocar o id com o verbo em riste.

Alegria saber que outras Emilys em outras Amshest (Recife) brotam entre tantos abrolhos e em meio à erva daninha dos poemas prosaicos, vazados na forma impura da confissão descabelada e versificada. E na crista de ondas violentas desafiando a palavra para novos prélios com a alma, sem cair no embuste da prosa personalística, disfarçada em versos, nem seduzir-se pelo facilitário do poema sentimental demais, engarrafado de lugares comuns e confissões rodo, à flor da pele da alma lançados.

“As flores do meu adeus” é uma coletânea de poemas que assombra pela forma e estilo singular (mais do que pessoal) em que são transfigurados os textos ou escoado o rio tumultuoso de palavras e pensamentos, que se precipitam da cabeça de uma jovem adolescente para o leito sagrado da página, onde só deve deslizar o verbo subjugado pelo instinto poético, que não doma, mas libera a essência do sentimento filtrado pela linguagem. “As flores” também revela segurança e controle do sentimento que nunca invade o território da página, sem antes filtrar-se na linguagem (refriso, não repito) e encanta pelo teor romântico, suspenso em sonho e erotismo leve e profundo.

Sobretudo, a contenção (essencial à poesia) de Helga denuncia na seleta reunião de poucos e intensos poemas de uma primeira lavra, o que mostra que a messe é longa e a lavoura moderna.

Não que Helga seja um gênio, mas apenas uma adolescente que filtra o sentimento via linguagem e usa a concisão como arma. A UBE tem por obrigação orientar, galvanizar o interesse, catalisar o ânimo, canalizar o ímpeto de poetas em suas primeiras incursões no cipoal da palavra poética, selva de esfinges, dorso de mistério, jângal de sentimentos metaforizados.

Poetas como Joana Reis (do santa Maria) e de outras escolas que frequentam a UBE serão estimuladas à edição do primeiro livro, no âmbito da coleção UBEJOVEM (convênio UBE – LIVRO RÁPIDO), preferencialmente para edição do primeiro livro de poesias até 18 anos.

Vital Corrêa de Araújo

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Murilo Gun

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