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Admmauro Gommes, poeta e professor de Teoria Literária da FAMASUL (Palmares-PE)

Nos primeiros momentos em que tive contato com a poesia de Vital Corrêa de Araújo, a imagem que logo me ocorreu foi a que quando, eu ainda criança, acompanhava meu tio em uma pescaria. O filme repassou completo em minha mente, durante a leitura de seus textos. O meu tio pescava em parte do pequeno rio que fazia uma cachoeira de aproximadamente um metro e meio. No desaguar do riacho, os peixes entravam em atrito com as pedras mais profundas, pulavam e saiam das águas como se estivessem fazendo acrobacias, e voavam. Cada um me surpreendia porque eu não tinha ideia de qual parte do rio apareceriam. Esta mesma cena me surgiu ao ler os poemas de Vital. Parece que as palavras deste poeta, quando entram em atrito com a folha d’água do livro, sobressaem e nos surpreendem, aos pulos, enigmáticas e ágeis.

Às vezes, não dava para descobrir a espécie  que saia das águas, na época do meu tio. Assim como em um rápido olhar quase não decifro o sentido metafórico da palavra vitalina.Aliás, como ele mesmo propõe, “o poema é algo trisambíguo”, pois vai além da ambiguidade que já é polissêmica, na mais simples expressão. É que os peixes saem das páginas dos poemas de Vital, como as metáforas voam no riacho. Eu não sei por que essas imagens se confundem. Talvez elas me comuniquem algo ligado ao doce da infância, ao vazio indizível, perceptível apenas nas linhas do texto e do anzol, como quem brinca com peixes ou pesca palavras.

Para mim, a poética de Vital Corrêa de Araújo triunfa emblemática e esfingeticamente, pois eu não sabia de onde vinham os peixes que se renovam, também não decifrei como nascem as combinações inusitadas nele, no poeta Vital. A cada palavra é um peixe diferente, conotações inauditas que nos levam a contemplar a correnteza caudalosa de seus versos. O mais interessante é que o rio não se esgota, é que a efervescência das letras não encontra um fim, quando continuam reinventando a vida, o desejo de interpretar o espetacular conflito do homem com ele mesmo. Mas o anjo anzol crítico não cessa e insistimos com os peixes das palavras.

Como aqueles voos cegos de pássaros/peixes que duravam fração de segundos  para que saíssem da água e a ela voltassem, os textos de Vital também são assim. Apenas um breve olhar já é suficiente para que a mente fotografe as águas do livro, ou a página do rio. As imagens tanto da minha infância quanto as de agora, pela ótica desse poeta, mesmo sendo em rápida observação, permanecerão por muito tempo em minhas retinas, fruto de algo sempre novo, saindo do velho rio, contudo indecifrável como é a essência do próprio ser, nessa pescaria sem fim, que é a vida.

 

Murilo Gun

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