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Rilke foi contínuos alumbramentos, sucessivos alumbramentos que me enrilqueceram ao longo dos anos oitentas do século finado.

O deslumbrar poético veio em ondas líricas intestinais. Sacudiram o ser o deslumbramento da poesia de extremado lirismo da grife Rilke e o maravilhamento magnético insuflado na veia VCA por essa poesia que garimpa o espírito até agora e penetra o profundo coração das coisas.

 

Por mero e imponente acaso, li trecho (citação) das Elegias de Duino... e veio o poema que rompeu a veia lírica aos borbotões, saltou da caneta poética VCA e iniciou a grife própria... e peculiar.

 

O herói dura

o tempo da queda.

e persistiria se a hora

não erodisse o pedestal.

 

Foi do primeiro livro, dos primeiros poemas... lembro que Gustavo Krause – colega por 4 anos do Colégio Félix, Secretário da Fazenda e um Diretor dele, também amigo de quem esqueci o nome, me abordaram elogiando o poema indicando a revisão da palavra “pedestral”.

Quase ninguém percebeu, só eu depois, à menção de alguém, que a gênese, o selo, o padrão advieram da elegia de Rilke.

Daí, adquiri toda a obra rilkeana – só conhecida no Brasil, à época, Cartas a um jovem poeta. Busquei em Lisboa toda tradução possível e o conjunto existente de obras do poeta tcheco-alemão. Do Austro-império húngaro.

Água húngara, título de livro, advém dessa fonte.

De Portugal, sete livros de Rilke, tradução de Quintela, perito em Holderlin, em papel grosso, especial, com capas austeras... além de outros... e de editoras mexicanas traduções em espanhol de vária obra. Isso em 1978.

Especializado em Elegias de Duino e sonetos a Orfeu, desde 1988, quando passei meses na Alemanha, curto até hoje o magno poeta... e sei detalhadamente do processo de composição rilkeano dessas duas obras mestras, que são ELEGIA DE DUINO E SONETOS A ORFEU.

Lugar, hora, momento, disposição do espírito, crise depressiva profunda, desencanto, artes de TDAH de que Rilke sofria (comprovo tal) e precisão do destino, iluminações súbitas, vertigens líricas, tudo sob voragem de solidão inexcedível (que a Rilke consumia como ópio ou láudano francês).

O lírico alucinógeno, com que se deparou o poeta em castelo da velha e nostálgica nobreza prussiana e o amparo – passional e intelectual de damas finas, madames longas, princesas ricas e nobérrimas senhoras, e o entusiasmo que o possuía levaram o possesso e sublime poeta a um dia escrever para uma princesa (verídica) e dizer... cravar: findei as elegias, para logo morrer.

De Rilke e Holderlin disponho (nos Brejos de Água Preta, em 3, 4 casinholas (do que vai ser alicerce da Fundação Finado Vital Corrêa de Araújo) de 300 livros de e sobre os dois monstros líricos, inclusive em alemão e outros idiomas.

Livro das horas é minha oração diária e objeto de bruscas e inteiras meditações sempre. Muitas vezes, o lirismo de Rilke se confundem com a Mata Atlântica.

Caso ganhe a mega sena só, vou morar na Floresta Negra (onde o sol nunca atravessa a copa das árvores de 80 metros de altura), a lê-los até o fim. Com uma tradutora do exímio alemão ao lado nua ou não.

É o meu sonho.

NOTA: Nenhum superlativo é suficiente para circunscrever o fenômeno lírico Rilke... e nenhuma pessoa pode ou deve escrever, compor, fazer um poema – e/ou dizer-se poeta – se não leu, ao menos uma das Elegias de Duino.  Ou o Livro das horas, esse missal poético. Ou o bíblico Sonetos a Orfeu (o do torso arcaico de Apolo é magistralmente sublime e prova da posse de Deus ao poeta no instante azado).

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Murilo Gun

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